Infância perdida

As crianças, por estarem em fase de formação, precisam ser ensinadas a lidar com limites. Mas como disciplinar sua energia natural sem comprometer a beleza da liberdade infantil?

Eugenio Mussak

Preparar uma criança para a vida significa dar-lhe condições de relacionar-se com as exigências de um mundo complexo | <i>Crédito: iStock
Preparar uma criança para a vida significa dar-lhe condições de relacionar-se com as exigências de um mundo complexo | Crédito: iStock

Calvin: "Eu sou apenas uma criança e quero fazer só o que me dá na telha. Por que eu tenho que aprender a ser responsável?"

Susie Derkins: "Porque você não será uma criança para sempre. A infância é curta, a maturidade é eterna".

Calvin: "Eu sei, o mundo é injusto. Mas eu pergunto: ele não poderia ser injusto a meu favor?"

Esse diálogo saboroso é marca registrada da obra do cartunista americano Bill Watterson, reproduzida diariamente em jornais no mundo inteiro. Conheço gente que começa a leitura do periódico pela tira do Calvin, o garoto de 6 anos que é o representante oficial do lado transgressor das crianças e, de certo modo, de todos nós.

Ele está apenas tentando entender o mundo ao qual mal acabou de chegar, mas já está fazendo um esforço para mudá-lo, de acordo com suas ideias e seus princípios. Calvin convive com pessoas que ele considera totalmente equivocadas: seus desesperados pais, a paciente professora Miss Wormwood e a pobre babá Rosalyn, que passam maus bocados para conter a energia transgressora do moleque.

O único que o compreende é o tigre Haroldo, seu grande companheiro. E há Susie Derkins, a garota que é o oposto do Calvin: ponderada, estudiosa, disciplinada. Ela é, ao mesmo tempo, antípoda e alter ego de nosso herói, pois representa tudo o que ele abomina e, ao mesmo tempo, o que ele sente - mesmo a contragosto. Susie é respeitada e admirada, mas, claro, é uma chata.

Calvin e Susie simbolizam a dualidade na educação das crianças. Se, por um lado, apreciamos a infantilidade natural, a espontaneidade livre dos pequenos, por outro tentamos colocar-lhes limites, educá-los para que convivam em harmonia em um mundo cheio de regras e exigências. É provável que encontrar o equilíbrio entre essas duas verdades seja o maior, e mais necessário, desafio para quem se dedica a educar pimpolhos.

Aos pequenos, "raízes e asas", como sugeriu Kant. Estava certo o disciplinadíssimo filósofo alemão. As raízes nos prendem à essência, ao imutável, ao eterno, e nos dão a segurança de ter com quem contar e para onde voltar se nada der certo. As asas permitem o voo da vida, a descoberta e a construção de infinitas possibilidades. Ter asas significa viver a própria vida e construir seu próprio futuro. Todas as mães sabem disso, mas bem que gostariam que as raízes fossem mais fortes que as asas.

"Voar não é só com os pássaros, nós também voamos", escreveu Moa­cyr Scliar em um de seus últimos textos, "A síndrome do ninho vazio". Mas voar exige competência para tal, e é disso que falamos quando mandamos nosso pequeno para seu primeiro dia de escola, alegre e assustado ao mesmo tempo. E lá ficamos nós, com o coração a mil, olhando nosso filho desaparecer nos corredores, dando a mão à sua primeira professora, que vai ajudar a conduzi-lo à liberdade ao mesmo tempo desejada e temida.

Algumas crianças estão sendo transformadas em adultos, com compromissos e responsabilidades. Será que isso é bom?

O termo "executivo" tem sido mais empregado para representar o funcionário de uma empresa que desempenha o papel de um provedor de realizações. Os bons executivos são disciplinados, organizados, planejadores, focados, visionários e, não menos importantes, são capazes de influenciar outras pessoas, assumindo, nesse caso, o papel de líderes. E, acredite, o mercado de trabalho tem faro fino para identificar o perfil executivo de um candidato a emprego. E faz uso dele.

Sempre foi assim, e a tendência é que seja ainda mais no futuro. Se você for um executivo, terá mais probabilidade de ter sucesso profissional e também pessoal. Por isso não há nada de mau em ensinar às crianças algumas habilidades executivas, aquelas que tornam a vida mais prática e produtiva. São músculos para suas asinhas, que vão crescer de qualquer maneira. E, se crescerem mais fortes, tanto melhor, maior será o alcance do voo.

Recentemente, ganhei de minha amiga Sara Hughes, fundadora da escola FourC, na cidade de Bauru, um livro muito instigante. Seu título, em inglês, é Smart but Scattered, que poderia ser traduzido para algo como "Esperto, mas avoado". Seus autores, Peg Dawson e Richard Guare, são psicólogos do Centro de Estudos sobre Aprendizado e Distúrbios de Atenção de New Hampshire. E sua proposta é simples: educar é muito mais do que passar conhecimentos estandardizados; educar é preparar para a vida.

E preparar uma criança para a vida significa dar-lhe condições de relacionar-se com as exigências de um mundo complexo e exigente. "Não há nada mais frustrante do que observar seu filho ou sua filha, que tem tanto para oferecer, debatendo-se com as tarefas e exigências corriqueiras do dia a dia", ponderam, logo na abertura do livro. De fato, as tarefas rotineiras, como lidar com dinheiro, organizar compromissos, manter a pontualidade, assumir responsabilidades a seu alcance, deveriam ser encaradas de maneira natural, sem assombro nem estresse.

Os autores desenrolam o texto a partir de sua experiência e de suas pesquisas, mostrando que as crianças que desenvolvem habilidades práticas constroem um mundo circundante mais organizado e também mais feliz. Organização, planejamento e controle não são exclusividade de empresas. Ao contrário, empresas puderam surgir graças a essas qualidades humanas, que podem, e devem, ser aplicadas em todos os lugares a qualquer momento.

Mas, não podemos esquecer, habilidade não são inatas, são aprendidas. E quem nos ensina é o ambiente onde estamos inseridos, sendo a escola apenas uma parte dele. A família é o primeiro e mais determinante provedor de habilidades, pois o que se aprende em casa vem acompanhado de afeto e significado, mais do que na escola.

Ser inteligente não é suficiente, é necessário usar a inteligência para produzir benefício. Aliás, a inteligência é reconhecida exatamente pelo seu uso, e não por sua simples existência. Você certamente conhece alguém considerado inteligente por sua memória, seu conhecimento ou por sua capacidade lógica que, apesar disso, coleciona uma série de insucessos e erros cometidos em sua vida prática. Alto QI é como argila de boa qualidade, precisa ser trabalhada para se transformar em obra de arte, senão continua sendo apenas isso, argila de boa qualidade. Inteligência é energia potencial. Habilidade é energia cinética.

Mas as crianças não perdem a chance de serem apenas crianças quando ganham responsabilidades?

A inteligência, tal como a habilidade, precisa ser moldada, incentivada e até disciplinada. A disciplina, ao contrário do que se pensa, não aprisiona, antes é um instrumento de libertação. Ela nos ajuda a organizar, justamente em tempos em que temos tantas coisas a fazer. Não é dela a culpa da sobrecarga. Esta vem do exagero, da volúpia por realizar, da ambição desmedida.

Se bem usada, a disciplina nos permite realizar mais, sim, mas também nos permite ter mais tempo para o prazer puro e simples, como o de brincar simplesmente, sem vincular a brincadeira a nada além da alegria. O que é ser "simplesmente criança" senão ser livre para brincar sem responsabilidade nem consequência? Nesse sentido, insisto, eu quero ser criança para sempre. Quero ser livre para voar com minha imaginação para além dos horizontes pré-definidos pelo modelo mental cristalizado das gerações que me antecederam. Quero dar-me o direito de errar e de ser feliz. É o mesmo que qualquer criança quer, sem saber que quer.

Trata-se, reconheço, de uma grande ambição. É por isso que temos que nos organizar, planejar e controlar o espaço em que nos foi dado viver. É melhor atender logo às demandas naturais da vida, aquelas que nos infernizam porque as protelamos, e as protelamos porque não são agradáveis. E isso é aprendizado, treino, condicionamento.

A vida se torna melhor quando enfrentamos as dificuldades naturais com armas mais adequadas, e estas são as chamadas habilidades executivas. Uma criança não deixará de ser apenas uma criança porque aprende noções de tempo, responsabilidade e execução. Ao contrário, isso fará com que ela consiga se livrar cada vez mais rápido de suas responsabilidades crescentes e tenha, assim, mais tempo para ser simplesmente criança.

12/05/2017 - 16:12

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Revista Vida Simples