Lamarck tinha razão

A biologia pode ser aplicada à vida cotidiana. Quando deixamos de usar algo, provocamos uma atrofia, e isso vale para o corpo e para os relacionamentos

Eugenio Mussak

Lamarck tinha razão | <i>Crédito: Divulgação
Lamarck tinha razão | Crédito: Divulgação

entre as ciências naturais a que mais me interessou, desde sempre, foi a biologia, que considero o encontro de todas as demais. De bom estudante virei professor, e passei cerca de 25 anos estudando e ensinando os mistérios, as belezas e os fascínios das moléculas, células, tecidos, plantas e animais. De todas as áreas as três que mais me fascinaram foram o evolucionismo, a genética molecular e a respiração celular. A primeira parece ter sido criada por um especialista em estratégia, e explica de onde viemos e como chegamos até aqui. A segunda, que coloca o dna no centro da vida, parece coisa de um engenheiro de computação genial. E a terceira... bem, esta, que estuda como a energia do sol é aprisionada dentro das células das plantas e chega até nós pela alimentação para que possamos viver, só pode ter sido imaginada por uma inteligência superior, criativa, engenhosa e poética. Realmente, a fotossíntese parece ser uma mágica e encanta por sua simplicidade. Quero aqui resgatar as ideias de um dos primeiros evolucionistas, anterior ao maior deles, o inglês Charles Darwin. Estou falando do francês Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, que, depois de receber um título de nobreza — o de cavaleiro, ou chevalier —, passou a ser conhecido por seu nome de nobre: Lamarck. Mas será que as ideias de um naturalista nascido no século 18 podem ser úteis para nós, em pleno século 21? Podem nos ajudar a viver melhor? Pois eu aposto que sim e, para isso, preci
samos compreender um pouco do que ele disse. Então vejamos. Lamarck é conhecido por ter gestado três ideias, duas delas corretíssimas. A primeira é que todos os seres vivos, incluindo a espécie humana, estão em permanente processo de aprimoramento de seus corpos, o que seria necessário para acompanhar as mudanças do meio ambiente. Aqueles mais resistentes a mudar não estariam evoluindo e, com o tempo, não poderiam mais viver em um mundo novo. Mais tarde essa teoria foi mais bem explicada por Darwin, ao introduzir a expressão “seleção natural”, que explica como as espécies são escolhidas para viverem e se reproduzirem ou para desaparecerem sem deixar descendentes. Alguma coisa a ver conosco na atualidade, especialmente nas profissões e nos negócios? A segunda ideia, a qual desejo aprofundar aqui, transformou-se em uma lei, conhecida como “Lei do Uso e Desuso”. O que Lamarck, que foi o curador do Museu de História Natural de Paris, percebeu em suas experiências, e publicou em seu livro Philisophie Zoologique, em 1809, é que os animais tendem a desenvolver os órgãos que mais usam, e a atrofiar os menos utilizados. Os órgãos em que esse fenômeno fisiológico se manifesta com mais evidência são os músculos. Quando você se exercita, levanta pesos, pratica esportes, os músculos, por estarem sendo mais exigidos, são, em contrapartida do corpo, mais alimentados. Por isso crescem, se tonificam, ficam fortes. A palavra certa para esse fenômeno é hipertrofia, já de uso comum, especialmente no mundo do fitness. Hyper tem o sentido de grande ou muito. Trophe, em grego, significa comida, alimento. Hipertrofia, normalmente usada para designar o crescimento muscular, em sua origem quer dizer que o músculo está bem alimentado. Na mesma linha, hipotrofia sinaliza pouca nutrição, e atrofia, sem qualquer nutrição. E o músculo se alimenta mais ou menos em função da carga de trabalho a que é exposto. Quem trabalha mais come mais, quem trabalha menos come menos. É a meritocracia muscular. Mas Lamarck atirou no que viu e acertou, também, no que não viu. O que quero dizer é que o uso, que aprimora o órgão, não é restrito aos músculos, nem se limita ao corpo. Os ossos dos astronautas que ficam longos períodos em gravidade zero deixam de realizar o trabalho de sustentar o peso do corpo e se descalcificam. Pessoas que pouco se movimentam tendem a perder a função das articulações, afinal elas são pouco necessárias. Mas o fenômeno vai além. O mesmo acontece com os que não leem, não estudam, não exercitam suas faculdades cognitivas. Com o tempo, focar, pensar, entender, concluir e decidir fica mais difícil. O músculo não usado fica fraco. Pois o cérebro também. Há quem menospreze Lamarck por causa de sua terceira teoria, a da herança dos caracteres adquiridos, que estava errada. Ela diz que uma característica adquirida pelo esforço de um animal seria transmitida a seus descendentes. Assim, as girafas esticaram o pescoço para comer as folhas mais altas, e seus filhotes já nasceram pescoçudos. Nada a ver, convenhamos, mas, 
também, não se pode acertar tudo, não é mesmo? A questão é que o acerto do francês foi muito mais importante, e hoje podemos nos permitir extrapolar a ideia do uso e do desuso para todas as áreas com as quais lidamos. Motores de carros não usados enferrujam. Livros não lidos emboloram. Quartos não frequentados se enchem de pó. Amigos não lembrados desaparecem. Carreiras não aprimoradas se esfarelam. É claro que é uma adaptação, mas o fato é que o uso, em parceria com o cuidado, promove crescimento, desenvolvimento, aprimoramento, seja em que área for. O descaso é primo-irmão do desuso. Casamentos não cuidados, em que não se pratica o diálogo, a conversa, o sonho a dois, a paixão pelo cotidiano, enfraquecem e perecem. Amizades não exercitadas viram meras lembranças. Assim é a vida em sociedade. Até a tão falada e necessária ética, o compromisso moral que busca o bem comum, que se vale do respeito, que valoriza a honestidade, que cria as condições para o convívio elevado, pode ser fruto da prática, do exercício cotidiano, em que os direitos vêm acompanhados de deveres, e em que a harmonia social nos protege e nos dignifica. O pouco uso da ética atrofia a moral. Vivemos em uma época de nossa história que valoriza e privilegia os fortes, e a força, como vimos, depende do uso intensivo. Quer ficar forte? Pois faça força... Aplique a lei que favorece o esforço e fique forte, exercite-se. Sem esquecer que o que vale mesmo é ser forte fisicamente, mentalmente e, não menos importante, moralmente. Lembrando Aristóteles, ele mesmo um biólogo, pratique o certo, pois a prática vira hábito, que vira caráter, que vira destino. 

 Eugenio Mussak acredita que conhecer a natureza nos ajuda a nos conhecermos. 
 

18/01/2018 - 11:41

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Revista Vida Simples