Leve a vida do seu jeito

Casar antes dos 30, ser gerente de multinacional, ter filhos. Você não precisa adotar essas receitas para ser feliz. Descubra como seguir suas vontades pode torná-lo mais livre e realizado

Rafael Tonon

O funcionamento temporal da nossa sociedade foi todo pautado pela revolução industrial | <i>Crédito: Vida Simples Digital
O funcionamento temporal da nossa sociedade foi todo pautado pela revolução industrial | Crédito: Vida Simples Digital

Ana Paula é casada há sete anos, mas não quer saber de filhos. Bruno largou o emprego em São Paulo e decidiu adotar o mundo como escritório. Camilla leva os filhos para a escola no meio da tarde, quando a maioria dos outros pais já se prepara para buscar suas crianças. Sem se preocupar com o que a tia diz no jantar de Natal ou com os conselhos tortos do ex-gerente da empresa, cada um segue sua vida, contribuindo para subverter alguns padrões de comportamento que há muito foram defendidos (impostos?) em nossa sociedade moderna. Mas que parecem fazer cada vez menos sentido nesses tempos plurais, em que as diferenças são cada vez mais aceitas.
  "A verdade é que padrões sociais estão caindo, e numa velocidade impressionante. Nos últimos 50 anos, tivemos mudanças de comportamentos sociais muito maiores do que nos últimos 500 ou até mil anos", afirma o psicoterapeuta Ari Rehfeld. "Estamos vivendo um limiar, caminhando para grandes mudanças de antigos modelos e para construção de novos." A conquista da diversidade de gênero é, para Rehfeld, um marco dessa nova realidade. "Até um tempo atrás, seguíamos o modelo bigênero de homem e mulher. Os que não acompanhavam isso eram marginalizados. Hoje, a OMS [Organização Mundial de Saúde] fala em 16 modalidades possíveis e reconhecidas." Para quem vive a questão, como as pessoas transgêneros, o assunto vai ainda mais longe: a diversidade de identidades de gênero é tão grande que não dá para numerar. "Cada pessoa vivencia a questão de forma diferente", diz Hailey Kaas, do coletivo Transfeminismo. "Existem pessoas que não se identificam nem como homem nem como mulher, mas não se consideram transexuais também. Essas pessoas geralmente gostam de transitar entre o que é considerado masculino e feminino sem compromisso de decidir por um dos `lados¿." Se o questionamento das fronteiras entre masculino e feminino é algo recente, outras áreas já estão em franca mudança. Para Ari Rehfeld, a mais significativa está nas novas formatações familiares.
  No Brasil, mais da metade das famílias (50,3%, segundo o IBGE) já não segue o modelo Doriana. "Estamos enfrentando o fim de uma estrutura familiar monoparental: pai, mãe e filhos. Caminhamos para um novo tipo de agrupamento que ainda não tem nome, porque é muito novo, mas que se aproxima da ideia de clã", diz. Um casal se casa e tem filhos. Daí um tempo, eles se separam. Depois, cada um se casa novamente com outras pessoas que também têm filhos. Esses filhos convivem tão bem com seus pais e padrastos como as mães convivem com as madrastas dos filhos e os ex-maridos. "No Natal junta todo mundo. Se ela tem um problema com o carro, pede ajuda para o ex-marido (e não para o atual), já que tem boa relação com o mecânico que por anos foi o oficial da família." Essa relação pacífica - fruto de cada vez mais separações não litigiosas e amigáveis - gera um "mosaico" familiar, que já não segue a ordem das árvores genealógicas tradicionais. Essas famílias, que misturam frutos de diferentes uniões, já representam 16,2% dos casais com filhos no Brasil.
  Também em crescimento estão os casais que optam por não querer que a tal árvore gere frutos. Em inglês são chamados de DINK, sigla para "double income no kids", ou casais que têm renda dupla mas nenhum dependente - e que não planejam ter, obrigado. Casada há sete anos, a editora Ana Paula Gomes não cresceu com o sonho de ter filhos. "Não é que eu tenha pesado prós e contras e decidido que os contras ganhavam; simplesmente esse desejo nunca se manifestou", conta. Ela diz que sofria pressão dos familiares para gerar um herdeiro. "Para eles, não fazia sentido sermos casados e não procriar. Eu era arrastada para conversas particulares sobre o assunto e ficava meio sem saber o que dizer. E a cobrança era feita sempre sobre mim, nunca sobre meu marido." Cansada de ter que se justificar por sua escolha, ela decidiu colocar a história em pratos limpos. "Em uma reunião familiar, resolvi falar para todo mundo que não estava gostando nada daquilo. E as cobranças foram diminuindo. Hoje, acho que já abriram mão da esperança", brinca.
  Ana Paula se diz mais feliz com a liberdade que a vida sem filhos lhe proporciona. "Como não temos gastos com fraldas, escolinha etc., podemos nos dar ao luxo de gastar mais com bons restaurantes, viagens, shows. E temos tempo para tudo isso também." Para ela, a maioria das pessoas não questiona se ter filhos é realmente o que querem da vida. Elas simplesmente reproduzem o modelo que viveram em casa e, muitas vezes, idealizam a maternidade/paternidade. "Conheço, sim, pessoas extremamente realizadas no papel de pais e mães, mas isso não é verdade para todo mundo." Ela tem razão: os casais sem filhos já representam 2,9% da população no Brasil - índice que vem crescendo a cada ano.
  Seguindo a proporção geométrica do caso de Ana Paula, há também um crescimento considerável de adeptos ao "bloco do eu sozinho": solteiros convictos, que não querem ter filhos nem tampouco se casar. No Brasil, as residências de pessoas que moram sós triplicaram nos últimos 30 anos - já são 6,9 milhões de brasileiros que mantêm uma única escova de dente sobre a pia. As pessoas passam mais tempo de sua vida adulta solteiras do que casadas. É um sinal de que as relações amorosas tradicionais já não preenchem as exigências de todo mundo. Se antes morar sozinho era visto como uma incapacidade social ou uma fase transitória da vida, conquistar a independência do próprio espaço se tornou um status que muitos perseguem como símbolo de sucesso, de liberdade e até de realização pessoal. "É difícil harmonizar as necessidades individuais com uma vida a dois", defende a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, em seu livro A História do Amor. "As pessoas se relacionam mais por necessidade de segurança do que pelo prazer da companhia um do outro. A dependência entre um casal é encarada por todos com naturalidade porque se confunde com amor", afirma.
  Para Regina, os modelos tradicionais de relacionamento são insatisfatórios e causam sofrimento. "Pouca gente tem coragem de tentar novos caminhos. Apesar das frustrações, quase todos recorrem ao que já é conhecido. O desconhecido assusta, dá medo, gera insegurança", diz. Os que já não se contentam com os padrões das relações (quase sempre idealizadas e com excesso de romantismo) passaram a levar a cabo a velha máxima do "antes só do que mal acompanhado". Se antes era preciso ter uma boa razão para se separar de alguém, hoje é preciso de um bom motivo (e outros bons atributos) para estar com uma pessoa. Para quem ainda quer estar com alguém, mas não se encaixa nos padrões usuais de relacionamento, existem novos formatos de relação, que fogem do modelo monogâmico tradicional. São os relacionamentos abertos, poliamorosos ou livres. No primeiro caso, o casal combina que é permitido ter relações extraconjugais; no segundo, são relações fechadas entre três ou mais pessoas; no terceiro caso, cada pessoa é livre para agir como quiser e as regras são mínimas. "As pessoas estão mais individualistas, mas não no sentido egoísta do termo, apenas valorizando seus desejos pessoais", afirma o psicanalista Jorge Forbes. Isso gera um incômodo nos conservadores, mas aumenta as chances de cada um ser feliz - com ou sem alguém.

Em busca de um plano B

Nesses tempos em que o individual começa a prevalecer, as particularidades de cada pessoa ganham espaço, e representatividade, no mar de gente. É o "culto do indivíduo", como defendeu Émile Durkheim, que se desenvolveu da transição das comunidades rurais para as cidades modernas industriais. Nossa sociedade contemporânea parece viver o auge desse culto e caminha para que os desejos individuais sejam cada vez mais respeitados. Entre eles o de não ter que acordar cedo para ir trabalhar. Ao menos, é pelo que luta a dinamarquesa Camilla King, uma pesquisadora da área de bem-estar que é fundadora da Sociedade B, um novo padrão social proposto que leva em conta os diferentes ritmos biológicos das pessoas a fim de criar horários alternativos para o funcionamento das coisas: de escolas a organizações públicas. Baseada em pesquisas científicas que indicam que cada indivíduo tem seu próprio ritmo biológico (determinado geneticamente), o manifesto lançado por Camilla prevê uma revolução social e abre precedentes para questionarmos o status quo funcional da nossa sociedade. "Queremos uma sociedade mais flexível, com horas diferenciadas na escola, que possa suportar os diferentes ritmos circadianos dos alunos, e um ambiente de trabalho maleável, onde uma variedade de horas de trabalho sejam socialmente aceitas", diz ela.
  Camilla prega que mudemos de uma "sociedade A" - que legitima um mesmo expediente de trabalho para todos, um único ritmo etc. - para a tal Sociedade B, em que as diferenças sejam incorporadas socialmente, por meio, principalmente, de uma nova estrutura de tempo. Hoje, a Sociedade B já tem membros e adeptos em 50 países: foi introduzida recentemente em potências culturais e educacionais como a Suécia, Noruega e até o Reino Unido. Em Gotemburgo, na Dinamarca, os alunos das 7as e 8as séries podem optar por assistirem às aulas em turnos que vão das 20h às 8h. Os mais novos podem entrar entre 8 e 10 da manhã, ou 2 e 4 da tarde - caso dos filhos de Camilla. Em outras três escolas do país há horários alternativos determinados após pesquisas com os próprios alunos. "Cerca de 80% dos adolescentes e jovens entre os 10 e 20 anos têm cronotipos vespertinos [ou seja, `funcionam¿ melhor no horário da tarde]. Por que obrigá-los a assistir às aulas às 8h? Será que eles realmente vão conseguir se concentrar e aprender?", questiona.

Sem amarras

A mesma indagação vale para os horários de trabalho. A questão é que o funcionamento temporal da nossa sociedade foi todo pautado pela revolução industrial, em que fazia sentido que turnos fossem estabelecidos para dar conta do trabalho dos operários. Os tempos evoluí­ram desde aquela época, os tipos de trabalho também. Mas os horários de trabalho continuam os mesmos, o que acaba por pautar nossa rotina inteira. Os pais saem para trabalhar e já levam o filho para a escola simplesmente porque funciona assim. Inclusive o almoço, no início da tarde, foi determinado com base nisso. Isso piora até mesmo o trânsito, já que todo mundo vai para o trabalho e volta no mesmo horário. "Hoje, a maioria dos profissionais já não precisa estar em um determinado local de trabalho em um horário específico", diz Drew Gilbert, programador digital e diretor do documentário Wireless Generation ("Geração sem fio", em tradução livre), que aborda como os profissionais modernos já podem trabalhar de onde bem entendem graças, principalmente, a internet.
Para Gilbert, muitas empresas ainda nem se deram conta de que mantêm seus profissionais congregados em um mesmo espaço por simples convenção. "Se colocassem na ponta do lápis, iriam incentivar que mais gente pudesse trabalhar em casa ou onde preferissem. O bem-estar da pessoa conta muito mais para seu bom rendimento." Foi assim, como um clique (como sempre são as mudanças mais importantes que tomamos), que o designer e ilustrador Bruno Algarve percebeu que poderia seguir fazendo seu trabalho estando onde quisesse, o que não o obrigava mais a ficar em São Paulo, onde sua qualidade de vida estava cada vez pior. Depois de passar por várias partes da América Latina, morar no Peru e na Patagônia, agora ele e a esposa devem passar alguns meses na Amazônia e, de lá, só Deus sabe... "Alguns dos meus clientes nem percebem que não moro em São Paulo. Negocio valores e prazos por e-mail. Posso estar na neve, na praia, só o que necessito é conexão à internet e um cantinho para fazer minhas coisas", conta.
  Bruno defende que esse tipo de trabalho não apenas é possível, como cada vez mais necessário. "Criativamente, soma muito. Estou sempre experimentando, refrescando as ideias. De quebra, acho que ajudo em questões sociais, como no trânsito ou no meio ambiente, não me deslocando para reuniões do outro lado da cidade." Ele diz que teve de encarar os olhares de desconfiança da família, mas convenceu-os de que é mais que aceitável ter um estilo de vida como o que leva. "Sei que é pouco, que sou um só, mas espero influenciar outras pessoas a pelo menos questionar a forma como elas vivem", diz. Questionar, aliás, é sempre o primeiro passo para saber se estamos indo na direção que gostaríamos.
  No prefácio de Laranja Mecânica - clássico da literatura moderna, que trata justamente dos anseios individuais e dos padrões sociais -, o autor Anthony Burgess escreveu: "As coisas que comemos, as roupas que vestimos, os lugares em que moramos tornam-se progressivamente padronizados, pois a padronização é o preço que pagamos pelos preços que podemos pagar". Mas Ana Paula, Bruno e Camilla parecem dispostos a inverter esse cálculo - e pagar o preço que for para serem felizes, cada um à sua maneira.

13/04/2017 - 14:52

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