Livro “As pedras e o caminho” conta a jornada da autora por Santiago de Compostela

Depois de perder a mãe na noite de natal, Hellene S. Fromm fez uma peregrinação que mudou sua vida e inspirou livro infantil

Letícia Gerola

Ela me interrompeu dizendo “mãe, a vovó morreu?” | <i>Crédito: iStock
Ela me interrompeu dizendo “mãe, a vovó morreu?” | Crédito: iStock

Que enfrentaremos muitas pedras durante o caminho já é sabido, mas incluir a morte de um ente querido entre elas não é tarefa fácil. Foi tentando elaborar o luto pela perda de sua mãe que Hellene S. Fromm, paraibana de 34 anos, embarcou numa jornada que mudaria sua vida: o caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, teria mais pedras a acrescentar e algumas remover,  jornada que inspirou o primeiro livro da autora. “Perder a minha mãe me fez sentir uma criança de novo, sentindo falta de colo e acalento. Percebi que gostaria de falar com esse público infantil que às vezes é tão maduro: as crianças”, explica a autora. 

Como a perda da sua mãe te incentivou a finalmente realizar o caminho de Santiago de Compostela, jornada que virou tema do livro?

Perdi minha mãe na noite de natal, em 2014. Todo ano eu e minhas filhas passamos as festas lá em Salvador com ela, então, no natal seguinte, fui explicar para a mais velha, de quatro anos, que a vovó não ia estar dessa vez. Tentei explicar com uma imagem simbólica, falei que papai do céu precisava de uma costureira... Ela me interrompeu dizendo “mãe, a vovó morreu?”. Fiquei meio surpresa, quem será que precisava dessa imagem simbólica? Talvez fosse eu, não ela. Decidi reorganizar minha vida realizar um sonho que há tempos queria ter concretizado, uma viagem à Santiago de Compostela.

O que você viveu nessa viagem que te inspirou a escrever “As pedras e o caminho”?

Apesar de eu ter ido com meu marido e um casal de amigos, era uma viagem para me calar, refletir mais do que falar, deixar os sentimentos assumirem no lugar dos pensamentos. Passei por muitos desafios nessa viagem – as “pedras” do conto – e cada uma foi importante a seu modo. Teve pedra que me fez cair, teve pedras que eu mesma estava levando na bagagem deixando-a mais pesada... Percebi que as pedras fazem parte, mas você não tem que deixar elas te derrubarem. Você pode vê-las, desvia-las, removê-las... São uma analogia com o próprio luto, que também inclui fases e desafios, e nenhum deles precisa te derrubar.

O que mudou na sua vida depois da experiência em Saniago?

Quando eu voltei estava igual, mas diferente. Tinha vivido experiências muito intensas nessa viagem e não estava conseguindo elaborar, foi quando decidi começar a escrever As pedras e o caminho. Terminei no mesmo dia! Santiago de Compostela fez com que eu conseguisse retomar o meu caminho e o conto foi a materialização dessa experiência. Escrevendo o livro, que conversa com todas as faixas etárias, percebi que quem precisava do lúdico para atravessar aquele momento era eu: minha filha de apenas quatro anos rebateu meu conteúdo infantil com um conteúdo completamente adulto, os papéis tinham se invertido e me permitir ser ensinada foi uma parte fundamental para a superação da perda e para a confecção do livro.

As ilustrações são uma parte marcante do livro. Qual a importância delas para a compreensão da história?

As ilustrações foram um trabalho muito especial feito por uma querida amiga, Andrea Rigazzo. Ela é professora da minha filha caçula e uso um método de apreciação gotheniana para fazer as ilustras: o método consiste em sentir os quatro elementos no texto, água, terra, fogo, ar, e ir desenhando aquarelas vazias conforme os elementos sentidos em cada trecho do texto. Depois ela completou com giz de cera dando o tom da história. O mais impressionante é que eu não coordenei nada, e os desenhos ilustram tão bem as passagens do texto que se eu tivesse explicado não teria saído tão bom!

Há planos para próximos livros?

O livro vai ser lançado dia 14 de fevereiro na livraria Milenium, em São Paulo. Tenho planos para um próximo exemplar, que também vai ter infância como tema, mas dessa vez não será um livro infantil. “As pedras e o caminho” me ensinou que ninguém faz anda sozinho, foi comentando com as pessoas sobre o projeto que eu consegui uma ilustradora, uma diagramadora, um local para o lançamento... Me pareceu uma vontade mútua de que o livro acontecesse, e espero que o próximo também seja assim.

 

14/01/2017 - 11:10

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Revista Vida Simples