Maternidade com leveza

Ter filhos pode ser um delicioso caminho de descobertas, erros, acertos e, sobretudo, de muita felicidade. Bela Gil acredita que é possível viver tudo isso de um jeito mais natural e simples

Débora Zanelato

A maternidade pelo olhar de Bela Gil | <i>Crédito: Divulgação/Anna Fischer
A maternidade pelo olhar de Bela Gil | Crédito: Divulgação/Anna Fischer

A maternidade traz um desejo doce e ao mesmo tempo desafiador: transformar nossos pequenos bebês em seres felizes, amorosos e — por que não — capazes de fazer do mundo um lugar mais justo e melhor. E essa caminhada pode ser mais leve e feliz quando olhamos para nós e para os filhos como parceiros nesse processo de autoconhecimento e de aprendizados. A chef de cozinha e apresentadora Bela Gil acaba de publicar o livro Bela Maternidade (Sextante), onde conta, de um jeito fluido e espontâneo, sua experiência como mãe da Flor, 9 anos, e Nino, que logo completa 2 anos. Com leveza e simplicidade, ela defende uma maternidade sem rótulos e baseada em decisões conscientes que façam sentido para nós, que respeitem as crianças e também a natureza. E escreve desde a decisão de ter um filho, a escolha do parto, os desafios da amamentação, até a introdução alimentar. É um convite valioso para trazer mais poder e conhecimento às mães em suas decisões, e também para dizer que podemos repensar nossos hábitos e acolher nossos erros. Nessa conversa, Bela fala sobre suas ideias para viver uma maternidade mais natural e educar filhos com mais liberdade e respeito. É um olhar de esperança para um mundo que pede uma consciência mais amorosa e livre. 

Você vê na maternidade uma oportunidade para romper com padrões que precisam ser transformados?  Com certeza. Acho que, quando a gente tem um filho, começa a ver o mundo de outra forma. E esse novo olhar faz com que nos comportemos de um jeito diferente. No meu caso, sinto que acabo indo um pouco contra o sistema através das minhas escolhas. Se eu estivesse dentro do sistema, talvez tivesse tido uma cesariana eletiva, tomasse uma injeção para secar meu leite e aí daria apenas fórmula; na introdução alimentar, optaria por papinhas prontas ou só usaria fraldas descartáveis. Mas eu estou indo no rumo do que eu acho que precisa ser transformado, do que é melhor para o mundo. O bem-estar dos nossos filhos depende do bem-estar geral. Não posso estar bem se o outro não está bem. Então sinto que é preciso fazer o melhor para o todo. É difícil, é complicado, mas acho que quanto mais pessoas entenderem essa mensagem e se comprometerem em trabalhar nisso, mais podemos transformar esses padrões. 

Como os pais que desejam mudanças na criação de seus filhos podem fazer isso em harmonia com o que já está estabelecido, com os hábitos da família ou com o que é dado na escola?  Eu penso que a gente precisa achar o caminho do meio e, pra isso, precisamos entender os extremos. Um deles a gente já conhece, que é um sistema deturpado em várias formas. Então às vezes precisamos de outro radicalismo. “Meu filho não vai comer açúcar até tal idade e ponto final.” E aí, conforme a criança cresce um pouco mais e vai tendo contato com isso, os pais vão deixando fluir. A minha filha, por exemplo, não gosta da comida que é oferecida na escola. Então ela leva marmita. Se é possível fazer essa adaptação, por que não? Não sinto que estou sendo radical, estou só me organizando para viver a minha verdade. Se dizem “Ah, mas por que se preocupar, o mundo é assim...”, vamos continuar seguindo isso? Não podemos ficar passivos e achar que tudo bem em ser assim. 

Os pais enfrentam sempre muitos julgamentos sobre suas formas de criar. Como é possível lidar com mais tranquilidade em relação a isso? Eu acho que é você ter informação e estar certa da sua escolha. É claro que nossas posições podem mudar, e é sempre ótimo estar aberto a novas ideias. Mas, se você não tiver informação sobre nada, fica muito mais vulnerável ao que os outros vão dizer ou julgar, e você vai estar sempre se perguntando se está fazendo a coisa certa. Munidos de conhecimento, os pais ficam mais fortes e podem se blindar dessas apontadas de dedo. Também acho que seguir a intuição é importante. Tenho meu lado racional, claro, mas minha intuição me ajuda a fazer escolhas. Cama compartilhada, amamentação em livre demanda e a introdução alimentar BLW [aquela em que o próprio bebê leva o alimento até a boca, com as mãos] são termos que eu só conheci quando fui escrever o livro, mas eram coisas que eu já intuitivamente fazia em casa, sem saber como chamavam. Porque também seguia o que eu achava bom. 

No livro você fala sobre criar os filhos com liberdade e respeito. Quais valores estão por trás da sua forma de criação? Acho que a gente tem filho para o mundo. Eles não vão mesmo ficar nas nossas asas para sempre. Mas, até certo ponto, podemos ser uma ferramenta de autoconhecimento para eles, esse é o meu papel. Tento moldar as coisas para que eles sejam os melhores seres humanos que existem e quero que me olhem como ferramenta de apoio para quando precisarem. Tanto para coisas ruins quanto para coisas boas, como uma família que é feliz. Busco seguir uma educação para criar meus filhos livres e felizes, sem imposições. Para que eles tenham liberdade e criatividade.
Você teve duas gravidezes em momentos da vida bem diferentes. Da Flor, aos 20 anos, prestes a começar a faculdade de nutrição. O Nino veio aos 28, com sua carreira no auge e demandando muito de você. Muitas mulheres se perguntam qual é a hora certa de ter um filho.

O que você considera mais importante nessa decisão? Acho que não existe a hora certa. Para mim, o mais importante é o amor. Se você tem mesmo amor, independentemente do seu status social ou econômico, você vai fazer da sua vida o melhor para aquela criança, e isso é o que vale. Se bateu o reloginho e você está bem-sucedida, ótimo, que bom. Mas, se não tiver a vontade de amar, não vai ser a mesma coisa. O que mais importa é a vontade de sentir esse amor.  Vejo casais que aproveitam a oportunidade para trocar de carro, ou comprar uma casa maior; em casa acabou sendo o inverso, reduzimos muito.  Estar aberto para amar, para ver a vida se transformar e as prioridades mudarem é o que considero importante de verdade. 

O parto pode ser um processo de empoderamento da mulher? Sim, totalmente. Isso começa ainda antes, na tomada de decisão, em que ela vai atrás de informações embasadas para uma escolha consciente. Aí a mulher já sente que precisa ser mais firme, se coloca numa posição de dona do próprio corpo e das próprias escolhas. No parto, a gente vê que não manda em nada: há uma força muito maior que é minha e eu não conhecia. Você se torna uma pessoa mais forte, mais feminista...  

Qual a importância de uma rede de apoio para criar os filhos? Acho que ela é muito importante para a mãe. Ela precisa de pessoas que a apoiem no cuidado da casa, na amamentação... Aqui, também é importante que as empresas olhem para isso, criem um horário mais flexível, porque isso é que contribui para a mãe continuar amamentando. Também acho importante conversar com o parceiro, porque precisamos decidir sobre tantas escolhas, e fica muito difícil se não der para compartilhar com ele o que você pensa.  

Qual a mensagem fundamental que você gostaria de levar sobre criação dos filhos? Que a gente soubesse que a vida pode ser muito mais leve e mais simples. Que podemos fazer escolhas erradas e voltar atrás. Está tudo bem, dá para corrigir. A vida é uma página em branco, a gente usa lápis, escreve, depois apaga. O que eu fiz com a Flor, para mim, não foi nada de errado. Com o Nino, com outras informações e outro momento da vida, fiz escolhas diferentes. E está tudo bem ser assim.

04/05/2018 - 09:36

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Revista Vida Simples