Memórias de viagem

Os registros das férias podem ir além da fotografia. Exercitando nossos sentidos, os destinos se transformam em lembranças ainda mais valiosas

Débora Zanelato

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
- | Crédito: Vida Simples Digital
era fim de tarde na cidade de Perth, na Austrália. A jovem singapurense Teresa Lim contemplava o Sol se esconder nas águas do Rio Swan quando decidiu fotografar a cena. “Era um pôr do sol que ficava ainda mais lindo com o movimento das águas. Queria registrar aquele momento para lembrá-lo para sempre”, diz. Mas, quando Teresa pegou o celular, percebeu que a bateria já tinha ido embora muito antes do fim do dia. “Levava comigo tecido, agulha e linhas e, então, decidi bordar a cena para guardar aquele momento de alguma forma. Minhas lentes seriam meus olhos e minhas mãos processariam aquilo que eu via”, conta ela. Depois daquele dia, Teresa se encantou pela forma não convencional de registrar as suas viagens e criou o projeto Sew Wanderlust – e já bordou mais de 30 lugares por onde passou a partir daquela tarde em agosto de 2014. “Sinto que realmente trago um pedacinho do lugar que visitei através dessa experiência, mais do que se tivesse feito mais uma foto”, me conta ela, por e-mail. Fazer nossas malas e embarcar para um destino cheio de novidades e tão diferente da nossa vida cotidiana pode ser um dos refrescos mais 
incríveis para os nossos olhos domesticados pela rotina. “O que nos encanta, na verdade, é o confronto com o nosso outro eu, aquela parte de nós que nunca se conformou com a vida em prisão domiciliar”, reflete a escritora Martha Medeiros em seu novo livro Um Lugar na Janela 2 (L&PM). Quem se move pela paixão de explorar paisagens diferentes facilmente se deixa encantar pelas pequenas minúcias que diferenciam aquele ponto turístico do nosso local de origem. As construções grandiosas e iluminadas da Times Square, em Nova York, as ovelhas livres pelos campos de Galway, na Irlanda, ou as singelas fileiras de bicicletas estacionadas nos infinitos canais de Amsterdã. O mundo a ser descoberto pode ser tão atraente que parece difícil não manter nossa câmera apontada para cada lugar pelo qual nos encantamos, com o desejo de eternizar e levar tudo conosco de volta para casa. “Um impulso dominante ao nos depararmos com a beleza é o desejo de nos agarrarmos a ela. Sentimos necessidade de dizer: ‘Eu estive aqui, vi isso e foi importante para mim’, observa o filósofo suíço Alain de Botton em seu livro A Arte de Viajar (Editora Intrínseca). Os retratos 
podem aliviar a comichão desencadeada pela beleza de um lugar; nossa ansiedade em relação à perda de uma cena preciosa pode diminuir a cada clique do obturador.” O problema, observa Alain, é que na busca por agarrar uma beleza fugaz podemos sobrepor a câmera aos nossos olhos, substituindo a nossa presença plena e viva por cliques desenfreados e vazios de significado e de memória. A americana Lauren Hom tomou uma decisão radical e decidiu experimentar um novo jeito de registrar sua viagem de 365 dias com 18 países no roteiro. Criou o projeto No Photos, Please (Sem Fotos, Por Favor, em tradução livre) e se comprometeu a não fazer nenhuma selfie, nem registrar o pôr do sol ou monumentos. Seu jeito de experimentar cada cidade – entre elas, São Paulo – foi através da caligrafia, que figura na abertura deste texto. “Eu percebi que já existiam milhares de fotos de todos os lugares que eu estava visitando. Eu pensei que com meus desenhos e a caligrafia eu poderia compartilhar tudo de um jeito mais interessante”, conta ela, que encerrou a viagem no começo deste ano. “Eu definitivamente senti que estava experimentando e vivenciando mais cada cidade por não estar constantemente apontando meu celular”, ela diz. Lauren mergulhou nas águas de Bali, na Indonésia, andou de barco em Kelara, na Índia, foi à feira em Cusco, no Peru. E, conta, aprendeu a observar com mais atenção cada lugar por onde passou, além de desenvolver melhor seu traço como ilustradora tipográfica. É claro que ninguém precisa – e nem deve – deixar a câmera para trás e voltar para casa sem uma foto da Torre Eiffel, da Fontana de Trevi, do Big Ben ou de qualquer outro ponto turístico já hiperfotografado ou pouco explorado. Um álbum de fotografia (ou, hoje em dia, uma pasta no computador) é capaz de nos transportar mais depressa que qualquer avião para aqueles dias que às vezes desbotaram na memória cotidiana. A Bruna, uma amiga querida, perdeu a câmera durante uma viagem e voltou no dia seguinte para fotografar alguns pontos e não ficar sem registros daqueles lugares pelos quais tinha se encantado. “Eu gosto de olhar para aquelas imagens, é como reviver um 

sentimento, e é o meu olhar. Lembro do dia, do clima, da comida. É bom ter esse registro, porque o tempo passa e nem sempre guardamos tudo”, ela me disse, quando contei que estava escrevendo esta reportagem. Mas não precisamos deixar a responsabilidade de criar memória só sobre os cliques da fotografia. O designer e ilustrador Thales Molina também passou pela temida experiência de perder sua câmera quando terminava um mochilão por Bolívia, Chile e Peru, em 2014. “Fui furtado no fim da viagem e levaram minha GoPro, que tinha quase 15 dias de fotos e vídeos. Perder a câmera foi um desespero, porque o que estava nela também era único. Mas hoje leio o caderno que levei comigo e vejo que ele descreve melhor que qualquer foto como foi meu dia a dia por lá. Quando folheio suas páginas, as lembranças vão vindo à minha mente. Naquele momento, eu abracei ainda mais o meu caderno como refúgio”, conta. No caderno do Thales, além de ilustrações que ele faz de pontos a que se dedicou a observar sem pressa, estão também anotações sobre o roteiro do dia, o que fez e observou em cada lugar, além de tickets, notas e comprovantes. “É quase um scrapbook. E as ilustrações representam as horas em que consegui contemplar bem aqueles lugares”, diz.

Movimento devagar

Observar com vagar algum ponto da viagem pode fazer com que seu roteiro contemple menos lugares, é verdade. Mas quem se dedica a enxergar com cuidado mais camadas de uma cena diz que isso transforma a nossa vivência naquele local. Para registrar de verdade, a gente precisa ver de verdade. Thales conta que, quando ilustra alguma cena, tem a sensação de absorver muito mais do que se tivesse passado o olho. “Nem sempre dá pra dedicar o tanto de tempo que queremos em certos pontos durante uma viagem, então se desprender um pouco disso e parar pra desenhar, sentar por mais minutos do que geralmente faria, faz com que a sensação de proximidade e absorção dos detalhes sejam maiores. As cenas que desenhei são bem mais frescas na minha memória do que as de que somente tirei fotos”, conta.


Teresa Lim, que borda alguns dos lugares por onde passa, chega a ficar até quatro horas no mesmo ponto. “Mas, nesse momento, eu sinto que eu estou realmente imersa naquela atmosfera, ouvindo o idioma das pessoas falando ao redor, escutando o rádio tocar na loja da esquina, sentindo o cheiro da comida no ar. Sinto que tenho tempo para verdadeiramente observar aquela cena em frente a mim. Isso, ao meu ver, é muito mais significativo que tirar várias e várias fotos e em seguida ir embora”, diz Teresa, que se sente amiga da paisagem depois de observá-la por tanto tempo. Thales também acha que seus desenhos falam muito da sua experiência. “Eu trabalho a expressão pessoal daquele dia, daquela luz, e meu estado físico e mental. Ao ver um desenho, lembro se passei apressado ou se estava ali para descansar e contemplar.”

 É preciso sentir
 John Ruskin, escritor, desenhista e poeta inglês nascido no século 19, acreditava que a fotografia devia servir de complemento ao ato consciente de ver. E que o desenho nos ensinava a reparar, mais do que só olhar. Dava cursos de desenho e, ao final de suas aulas, dizia: “Lembrem-se que não tentei ensiná-los a desenhar, apenas a ver”. Assim, você não precisa ser um exímio artista, já que o que importa de verdade é a experiência, e não a produção final. Thales, ilustrador talentoso, concorda. “A gente não precisa desenhar cenas complexas e hiperdetalhadas para ter uma memória afetiva para aquele desenho. No ano passado convenci um amigo com quem estava viajando a comprar um caderno. Ele não desenhava sempre, mas o usa até hoje. É um compilado das suas viagens também. O importante é a relação que cada um estabelece com os próprios registros”, diz. Há muitas formas de aprofundar a nossa conexão com um lugar. Além de bordar, fotografar ou desenhar, escrever também é um jeito especial de guardar nossas recordações. Descrever uma cena com detalhes, esgarçando o sentido das palavras, vai nos aproximando de uma representação mais autêntica, além de uma lembrança mais consistente daquilo que vivenciamos. É como fotografias escritas. Há alguns anos cultivo o hábito de anotar 
diálogos de gente comum com quem cruzo pelo planeta. Pessoas que, em poucos minutos, me contaram um pouco de sua vida, me mostraram sua cultura através da forma de pensar e sumiram para sempre – mas deixaram uma memória que me transporta em instantes para aquela cena. Talvez faça parte da experiência manter os ouvidos bem abertos. E aí também vale outra tentativa de registro: as playlists. Observar os artistas do metrô, o que está tocando na cidade, no restaurante, na rádio do uber ou do táxi, na exposição, em qualquer lugar – já anotei até a música pop que os guardas reais tocaram no Palácio de Buckingham (a saber, era Happy, do Pharrell Williams) durante a assistida troca de guarda. Escutar esses sons também aciona lembranças escondidas dentro da gente.

Viva no agora

 Voltar os nossos cinco sentidos para perceber uma experiência se transforma em uma forma valiosa de viver no presente, de exercitar a atenção plena. E de nos conectarmos com nós mesmos. “Eu aprendi a viver no momento presente. Viajar vira algo mais significativo. Eu percebi que posso aplicar esse jeito de ver as coisas não só enquanto viajo mas também no meu dia a dia. Quantas vezes nós estamos sempre distraídos com várias coisas? Aprendi a viver no agora”, conta Teresa. Alain de Botton também vê nas viagens a possibilidade de conversas internas conosco. “Podemos refletir sobre nossa vida a partir de uma altura que não alcançaríamos na pressa dos afazeres cotidianos – sendo sutilmente ajudados pelo mundo estranho ao nosso redor: pelos pequenos sabonetes embrulhados na borda da banheira, pela galeria de pequenas garrafas no frigobar, [...] pela vista de uma cidade estranha desdobrando-se, silenciosa, 25 andares abaixo de nós.” No regresso, vem a chance de trazer o olhar do viajante, enxergando nossos dias com mais frescor. Independentemente da forma que você escolher, registrar esses momentos pode ser um jeito de trazer para casa as memórias dos dias em que viajamos no nosso universo interior e nos descobrimos diferentes. Porque a viagem mais fantástica é mesmo a própria vida. 

16/06/2017 - 10:54

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Revista Vida Simples