Mesa para um

Restaurantes estão se especializando em servir uma pessoa por mesa e provando que comer sozinho também pode ser uma experiência enriquecedora

Rafael Tonon

Há muita gente vivendo sozinha nas grandes cidades | <i>Crédito: Vida Simples Digital
Há muita gente vivendo sozinha nas grandes cidades | Crédito: Vida Simples Digital

No número 46 da rua Trousseau, em Paris, funciona um pequeno bistrô, o Rino, liderado pelo jovem chef italiano Giovanni Passerini. O que chama atenção no lugar não são apenas as criações inventivas de seu chef, mas também o público, composto por jovens ávidos por comer bem e sem dinheiro para frequentar os grandes restaurantes parisienses.
  Os frequentadores do pequeno Rino são homens e mulheres que vivem na vizinhança, atraídos pelos alugueis mais baixos dos apartamentos e pelo custo de vida nessas regiões menos badaladas. À noite ou no almoço, lotam o pequeno salão em busca de boa comida (e taças de vinho) por um preço mais acessível. Muitos, por morarem sozinhos, chegam ali e solicitam aos garçons mesa para um. E, ao comerem sozinhos, estão ajudando a reinventar a cena gastronômica da cidade. Uma tendência, aliás, que tem se confirmado também em outras metrópoles do mundo.

Somente só

Há muita gente vivendo sozinha nas grandes cidades. Em 1996, eram 153 milhões de pessoas e, em 2006, 202 milhões - um aumento de 33% em uma década. E isso se reflete nas mesas dos restaurantes: por trabalharem o dia todo e terem pouco tempo para se dedicar às panelas, muitas têm a necessidade de sair para comer e buscam fazer isso em estabelecimentos menores e mais baratos. Graças também a elas, Paris, por exemplo, vive hoje uma onda de neobistrôs, como são chamados esses lugares. E isso tem renovado a gastronomia da cidade. "Hoje há muito mais restaurantes casuais na cidade, voltados a oferecer uma cozinha inventiva de qualidade não destinada apenas à elite. E essas pessoas comuns ajudaram com que bistrôs como o meu pudessem funcionar", afirma Passerini.
  O chef diz ser cada vez mais comum servir os pratos não apenas para quem mora na região, mas também para os foodies (os aficionados por gastronomia). Vale saber que, no Rino, o cardápio é ditado de acordo com os ingredientes que o chef consegue encontrar nos mercados próximos.

O novo normal

Depois de uma visita a vários bistrôs como o Rino, Carlo Petrini, presidente do Slow Food, associação que prega uma melhor apreciação da comida, escreveu um artigo entusiasmado: "podemos dizer que se trata de um fenômeno em grande parte jovem e é interessante observar como isso se sobrepõe às mudanças geográficas urbanas, que marcam o renascimento de bairros pobres e difíceis".
  Algo notado também em outras grandes cidades. De acordo com uma pesquisa realizada em 2013 pelo The Hartman Group, uma consultoria de pesquisas americana, 46% das refeições que fazemos por dia são desacompanhadas. Comer sozinho, segundo o estudo, tem se tornado o novo normal. "Para a maioria dos consumidores, o que caracteriza uma refeição nos dias de hoje se transformou de algo tradicional, em que sentamos para comer `carne e batata com a família¿, em situações cada vez mais constantes de se ingerir algo rápido e sozinho", explica Blaine Becker, diretor de marketing da consultoria.
  Uma questão que os pesquisadores levantam é que em muitos casos as refeições são feitas sozinhas mesmo quando as pessoas estão acompanhadas. "Temos testemunhado um rápido crescimento desse hábito, principalmente por conta da proliferação das tecnologias móveis", afirma Blaine. Enquanto o pai almoça na frente da TV, o filho come com o garfo em uma mão e o celular na outra.
  A verdade é que as ocasiões em que pensamos "puxa, acho que vou ter de comer sozinho hoje" deixaram de ser, de fato, ocasionais e passaram a fazer parte da rotina. "O que observamos é que muitas empresas continuam propagandeando o modelo de refeições familiares tradicionais enquanto perdem a chance de pegar carona nas situações em que muitos adultos estão comendo sozinhos, algo que se tornou um paradigma moderno", conclui. Afinal, quantas vezes as famílias ainda tomam café da manhã como nos comerciais de margarina?

Garfadas mais significativas

Mas isso não quer dizer, contudo, que as refeições sozinhas precisam ser corridas ou carentes de significado. A designer de bolsas e acessórios de origem marroquina Deborah Debo é uma dessas cidadãs parisienses que engrossam a estimativa de pessoas comendo sozinhas na cidade. "É possível alimentar corpo e alma numa `refeição solo¿, sem ter de apelar para um lanche em uma rede fast food nem espremer os bolsos", conta. O engenheiro paulistano Fabio Moon concorda. Personalidade gastronômica do Instagram, rede social na qual tem mais de 3 mil seguidores, ele é um adepto das refeições solitárias. "Sozinho, consigo prestar mais atenção naquilo que como, curtir mais o prato", diz ele, que faz cerca de 90% das suas refeições sem alguém para dividir impressões - ou a conta.
  Moon chegou a criar a hashtag #mesaparaum, que inclui em algumas das milhares de fotos que publica. Aqui no Brasil, ele diz ser menos comum encontrar pessoas comendo sozinhas em restaurantes (apesar de o número de adeptos do "bloco da mesa sozinha" estar aumentando) do que em outras cidades do mundo. Ele, que morou dois anos em Nova York, diz que intensificou o hábito de comer desacompanhado por lá.
  Mas Moon garante que comer sozinho não é nenhum sinônimo de solidão. Pelo contrário: quando está a fim de conversar, engata um papo com bartenders, garçons e maitres dos restaurantes que mais frequenta. "Até o atendimento é outro. Sozinho, você se permite conversar com quem te atende, saber mais dos pratos, quais ingredientes estão mais frescos e melhores", afirma. "Algo que não acontece se você tem um acompanhante na mesa", completa ele.
  O tratamento especial da brigada, segundo Gisela Redoschi, coordenadora de gastronomia do Senac São Paulo, faz parte de um esforço cada vez maior dos restaurantes e bares e para estimular os solitários a se sentirem mais à vontade. "Estes estabelecimentos oferecem ambiente e serviço acolhedores, com toda infraestrutura que propicie que as pessoas desacompanhadas possam fazer uso de equipamentos eletrônicos, ler, ouvir a música ambiente. Ou seja, aproveitar melhor a experiência", explica.

Em companhia de si

Afinal, a experiência de comer sozinho pode ser uma chance de se entregar melhor aos sabores e conseguir degustar mais intensamente a comida. "O foco passa a ser apenas a comida e o comensal está mais propício à estimulação dos seus sentidos", afirma Gisela. A escritora americana Lea Lane, autora do livro Solo Traveler (Viajante solitário, sem tradução no Brasil), dedica um capítulo a dar dicas práticas de como aproveitar um jantar a um. "Todos nós temos que comer sozinhos em alguma ocasião. Eu sou adepta das refeições compartilhadas, mas aprendi a gozar a experiência de estar sozinha em um restaurante", diz. Tentar fazer as refeições solitárias durante o almoço, escolher uma mesa tranquila e se sentar de frente para o salão são algumas das suas dicas. "Você fica mais compenetrado, consegue prestar atenção na prataria polida, nos detalhes do ambiente e observar as outras pessoas", diz ela.
  De olho nessa tendência, abriu, no final de julho, em Amsterdã, Holanda, o primeiro restaurante do mundo com mesas apenas para uma pessoa. O Eenmaal foi concebido como "o local perfeito para aproveitar de seu isolamento". Segundo sua criadora, a designer Marina van Goor, a ideia é propor uma ocasião excitante para quem nunca come sozinho e um lugar atrativo para quem já gosta da experiência. "É um restaurante como qualquer outro, mas onde o que mais importa não é com quem você vai sentar, mas sua própria companhia", explica. "As pessoas hoje estão se sentindo mais completas, mais felizes consigo mesmas", acredita. Se depender disso, em um ou dois anos, talvez, o Eenmaal já não esteja mais sozinho.


16/03/2017 - 16:20

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