Na mesma página

A raiz dos desentendimentos pode estar também na desigualdade da linguagem, e não apenas nas diferenças de opinião

Eugenio Mussak

Saiba como ter o novo cabelo jovial e moderninho de Mariana Ximenes | <i>Crédito: Vida Simples Digital
Saiba como ter o novo cabelo jovial e moderninho de Mariana Ximenes | Crédito: Vida Simples Digital

Quando expliquei como eu queria que fosse a organização de cada capítulo, Leandro assentiu com a cabeça enquanto anotava no laptop, provavelmente já criando imagens, como é de seu jeito. Conversar com um criador de sites e portais é um exercício de imaginação, pois a cabeça desses jovens, que exercem uma profissão que há poucos anos não existia, funciona em permanente estado de prontidão criativa. Eles são os responsáveis por criar mundos virtuais que representam fatos reais, como produtos, processos, serviços, histórias, e tudo o mais que faz parte da vida de uma pessoa ou empresa. Leandro é um webdesigner, portanto é em sua cabeça que começa a tradução do real para o virtual. Só depois entra em ação o programador. Enquanto o primeiro imagina como será, o segundo traduz para a linguagem de programação. Não é incomum que nesses dois processos trabalhem grandes equipes, como também não é raro que apenas uma pessoa possa fazer os dois trabalhos. Estamos falando do fantástico mundo da web, essa realidade paralela que interage com quase tudo o que fazemos atualmente. Estávamos trabalhando na criação de meu novo site, que terá uma parte dedicada a conteúdos de conceitos já consagrados e também de concepções pessoais sobre vários aspectos, especialmente sobre o comportamento na vida profissional da atualidade, apresentados em forma de vídeos curtos. Quando falávamos sobre esses vídeos, Leandro, como que dirigindo-se a 
si mesmo, disse: “Cada capítulo terá um mínimo de dois e um máximo de quatro minutos...”. “Não”— corrigi. “Cada capítulo terá um número variável de vídeos de três minutos em média”, disse. Foi quando ele me olhou como quem olha para alguém que ainda não entendeu, no caso, eu. E emendou: “Não, capítulo é o mesmo que episódio, portanto, cada vídeo”. “Não!” — insisti. “O capítulo é o conjunto de vídeos, que, aliás, estão agrupados em séries.” “Mas as séries não seriam as temporadas?” — perguntou o webdesigner com genuíno sentimento de dúvida. Nossa reunião já levava mais de meia hora e de repente percebi que estávamos patinando no vocabulário técnico escorregadio e dando voltas sem fim. Nossa dificuldade, concluí, não estava no entendimento do que deveria ser feito, da estrutura que deveríamos criar. A dificuldade estava no vocabulário, na confusão de comunicação entre dois cérebros que tinham, claramente, programações diferentes. Para mim, capítulo era cada divisão de um livro. Para ele, capítulo era um episódio de uma série de TV via streaming. Gerações diferentes têm visões diferentes da vida. Simples assim. Poderíamos ficar o resto do dia debatendo e não chegaríamos a uma conclusão, pois estávamos falando línguas diferentes. Enquanto não criássemos um consenso, de pouco adiantava continuarmos a falar sobre a estrutura do portal. A retórica deveria anteceder a discussão sobre a estrutura, na verdade. Felizmente nos demos conta dessa dificuldade. Ambos rimos e concordamos em “passar a régua” (esse ditado ambos conhecíamos). “Vamos começar do zero”— disse eu, ao mesmo tempo em que me levantava em direção a um flip-chart. Em comum acordo, criamos nosso próprio vocabulário. A partir desse momento, a reunião foi superprodutiva, e chegamos rapidamente à estrutura que queríamos. Voltando para casa não pude não pensar sobre o acontecido. A reunião havia durado cerca de três horas, mas pelo menos a metade dela foi dificultada pela diferença de vocabulário. Poderia ter sido mais rápida e produtiva se, antes, tivéssemos nos colado “na mesma página” vernacular. Foi quando olhei pela janela e vi o carro ao meu lado, parado no farol. Parecia ser um casal. Talvez fossem colegas de trabalho, irmãos ou amigos, mas que parecia um casal, parecia. Ele estava dirigindo, com as mãos apertando o volante e balançando a cabeça. Ela olhava para ele e gesticulava com a mão, dedo indicador em riste. Eu não conseguia ouvir (nem queria), mas fiquei com a impressão de que ela falava alto. Alguns decibéis a mais do que o necessário para se fazer entender dentro de um carro em movimento. Jamais saberei o que se passava ali, mas parecia um momento tenso, uma discussão séria. Torço que tenham encontrado o consenso e a paz rapidamente. O farol ficou verde e seguimos nossas destinações e nossos destinos. Seguimos iguais ou diferentes? Como a vida é um eterno aprendizado, e a cada instante acumulamos algo novo, somos diferentes do que éramos no instante anterior. Para mim isso foi evidente naquela ocasião. Eu não pude parar de pensar sobre o que havia visto naquele farol fechado, por causa do que tinha acabado de viver na reunião um pouco antes. Será — pensei — que as discussões, desavenças, brigas acontecem por diferenças de opinião, mesmo? Será que a causa disso não teria a ver com as infinitas variações de modelos mentais que antecedem o momento em questão? Passamos a vida construindo um modelo de pensamento, uma maneira de ver os fatos e, principalmente, de comunicar o que pensamos e sentimos. E todo esse repertório, elaborado lentamente a partir de experiências anteriores, é despejado sobre a bandeja da discussão de um fato pontual. A chance de haver distúrbios de entendimento é grande. A partir daquele dia, começo as reuniões tratando de colocar todos “na mesma página” dos temas a serem tratados, dos objetivos a serem atingidos e, principalmente, do significado de cada abordagem. Ou seja, pessoal, vamos falar a mesma língua, por favor... Já se disse que é mais comum, em uma discussão, principalmente de um casal, que cada um tente impor sua razão, que passa, a partir de determinado ponto, a ser mais importante do que encontrar uma solução. Talvez esteja aí a fonte da maior parte das desavenças. As diferenças de visão, de percepção e de opinião são importantes, caso contrário não poderíamos evoluir. Ficaríamos na mesmice. Mas, para que essa fantástica diversidade do coletivo seja aproveitada, é preciso, antes, fazer com que os espíritos habitem a mesma esfera de compreensão, o que pressupõe, acima de tudo, o exercício da humildade, a condição básica para o entendimento e o crescimento conjunto.

EUGENIO MUSSAK sempre pensa na melhor maneira de levar uma reflexão aos leitores.
 

24/11/2017 - 11:38

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