O cientista e o aluguel

Não vivemos apenas de feitos e descobertas incríveis, mas também de pequenas atitudes que podem fazer uma grande diferença

Eugenio Mussak

As pequenas atitudes fazem uma baita diferença na vida | <i>Crédito: Shutterstock
As pequenas atitudes fazem uma baita diferença na vida | Crédito: Shutterstock

A luz do laboratório era fraca porque apenas parte das lâmpadas se mantinha ligada. Esse era o ambiente preferido do velho professor, talvez porque ele passasse a maior parte do tempo debruçado sobre seu microscópio. Quando se levantava era, em geral, para consultar um livro ou para fazer anotações em um caderno, e, para isso, tinha o abajur em cima da escrivaninha.
A rotina do laboratório pode parecer monótona. As pessoas se movem em circuitos bastante restritos e, mesmo assim, muito pouco, pois passam a maior parte do tempo sentadas diante de aparelhos, livros ou anotações. Para o velho professor, entretanto, não havia lugar mais excitante no mundo. Com seus olhos preparados e sua mente ativa, ele via coisas que seriam invisíveis para a maioria das pessoas. 
Há mais de 30 anos, quando não estava dando aulas na faculdade, ele se isolava em seu laboratório particular, um pequeno universo autossuficiente, em que a aparente desordem era proposital e, na verdade, representava a organização perfeita de que ele precisava para não se preocupar com nada, a não ser com os resultados das pesquisas que realizava. Ele não precisava pensar para tomar uma xícara de chá, comer um sanduíche de queijo e presunto, ou encontrar e encher seu cachimbo Billiard com fumo de blend inglês, apenas ligeiramente aromático. Tudo estava no lugar que lhe era mais apropriado, assim sua mente se dedicava apenas  ao que interessava: sua pesquisa. Todas as arrumadeiras que já tinha contratado sabiam que, na prática, não eram arrumadeiras, apenas “limpadeiras”. Sua missão era tirar o pó, recolher a louça, limpar os vidros, sem jamais alterar a disposição dos objetos, por mais estranha que parecesse. Certa vez, uma foi demitida porque fechou um livro que estava em cima da poltrona. Afinal, como poderia o professor encontrar a página em que havia interrompido a leitura sem parar de fazer o que estava fazendo? Ousadia...
Na faculdade de medicina ele lecionava histologia e era reconhecido por sua capacidade de explicar as relações entre as células, os tecidos humanos, os microrganismos que nos habitam e, com especial atenção, a interação de tudo isso com o meio ambiente. As disciplinas básicas costumam ser excessivamente teóricas e, por isso, monótonas. Mas com ele era diferente. Suas aulas pareciam o roteiro do filme Viagem Fantástica, em que um cientista viaja pelo interior de um corpo humano com um submarino, ambos miniaturizados por uma tecnologia futurista. Aos alunos e aos outros professores ele costumava fazer referência às suas pesquisas, sempre criando um clima de mistério. Todos esperavam que, a qualquer momento, ele revelasse uma descoberta digna de um Linus Pauling ou de Watson e Crick.  E eles estavam certos. 
Em um final de tarde, o professor estava sozinho em seu laboratório. Sua mão tamborilava na bancada enquanto olhava para um cronômetro à sua frente, como se contasse os segundos para algo importante acontecer. E algo importante estava acontecendo. Quando o tempo estipulado foi atingido, ele retirou o fragmento de tecido biológico que estava sendo corado, depositou com cuidado aquela fina membrana sobre a lâmina de vidro, a acomodou no receptáculo apropriado de seu microscópio e aproximou seu olho direito da lente ocular. 
Ficou ali cerca de três minutos, ajustando as lentes, aumentando a aproximação, focalizando cada pedaço daquela superfície avermelhada, observando os detalhes. Quando levantou a cabeça, estava sereno. Foi até o aparador e encheu o cachimbo com uma porção generosa do fumo inglês recém-presenteado por um colega, deu duas baforadas para terminar de acender o tabaco e então sentou-se em sua poltrona preferida de couro, também inglesa, herança de uma tia. 
Um dos maiores desafios da medicina é a cura do câncer. Ainda que os diagnósticos precoces tenham ajudado a salvar muitas vidas, as cirurgias para retirada de tumores sem comprometer os órgãos tenham avançado e as terapias químicas e físicas tenham se sofisticado, o câncer ainda é um mistério assustador, por seu grande poder de letalidade. A ambição dos cientistas é entender como ele se processa em sua intimidade histológica. Sabendo como ele começa, poderíamos combatê-lo em sua origem, evitando os tratamentos dolorosos.
Os 30 anos de pesquisa silenciosa do professor estavam chegando perto de começar a responder às grandes perguntas sobre esse grande mal da humanidade. Ele agora poderia finalmente iluminar o trabalho dos laboratórios farmacêuticos, dos médicos e dos hospitais. Eles trabalhariam sobre bases mais sólidas a partir de então. Suas conclusões sobre como as falhas de comunicação genética entre as células e os tecidos provocavam as divisões celulares irregulares, originando o câncer, e principalmente o que fazer para mitigar esse risco, não tinham nada de “achismo”. Não era sua opinião. Era sua conclusão, a partir dos resultados de seus estudos. Ele sentia que tinha acabado de abrir a porta para a cura definitiva do câncer. 
Nesse momento sua atenção foi requisitada pela campainha da porta. Seu laboratório estava montado em uma pequena casa de vila, em uma zona residencial, e era raro que alguém viesse até ele sem avisar primeiro. Com alguma surpresa, e contrariedade, levantou-se, acomodou o cachimbo na mesinha ao seu lado e se dirigiu para a porta. Quando a abriu, viu um jovem de baixa estatura segurando uma pasta de couro em uma mão e uma folha de papel na outra. 
— Boa tarde, professor — disse o jovem, que tinha ares de burocrata, estendendo o braço em sua direção, oferecendo-lhe o papel.
— Boa tarde.
— Lamento, professor. Eu sou oficial de justiça, e esta é uma ordem de despejo. 
E nossa história termina aqui... Escrevi este  pequeno conto no final dos anos 1980, como tarefa de um curso de comunicação, e agora o encontrei por acaso. Ou não... Ele foi inspirado em fatos reais. Ainda hoje tenho aquela curiosidade de por que a inteligência é tão seletiva. O que leva pessoas geniais em uma área a ter tanta dificuldade em outra. O que faz, por exemplo, com que um cientista brilhante se esqueça, simplesmente, de pagar o aluguel... 

02/04/2018 - 11:10

Conecte-se

Revista Vida Simples