O poder terapêutico da marcenaria

Além de aprender algo novo, a marcenaria pode ajudar a deixar o estresse de lado. O tema será apresentado no Festival Path, que acontece dias 19 e 20 de maio, em São Paulo

Brunella Nunes

A marcenaria pode ter efeito terapêutico e ser ferramenta de auto-conhecimento | <i>Crédito: Divulgação/Joici Ohashi/Festival Path
A marcenaria pode ter efeito terapêutico e ser ferramenta de auto-conhecimento | Crédito: Divulgação/Joici Ohashi/Festival Path

Esboçar, tirar medidas, cortar, lixar, montar e aplicar acabamento em peças de madeira conseguem transportar um bocado de gente para um universo distante. O trabalho manual tem um potencial gigantesco que vai muito além do retorno financeiro. Em sua essência, de fato, o foco nunca é o dinheiro e sim o prazer pelo fazer. É dentro de tal pretexto que a marcenaria funciona como hobby terapia, um modo de se desligar, literalmente, do mundo externo e praticar algumas habilidades até então esquecidas.

Uma das palestras do Festival Path 2018, a "Marcenaria: detox digital" vai reunir quatro pessoas que descobriram na prática da marcenaria um estilo de vida mais saudável. O bate-papo é uma das 300 opções de conteúdo que vão se espalhar pelos dias 19 e 20 de maio, disputando espaço na agenda dos participantes com shows, filmes, workhops, feiras e mais atividades. Tudo acontece em diversos pontos do bairro de Pinheiros, em São Paulo. Saiba mais sobre o evento em www.festivalpath.com.br

O designer Caio Abi-Ramia vem do Rio de Janeiro para participar da conversa no Festival Path sobre marcenaria, que é sua profissão. Para ele e Pedro Chagas, seu sócio no makerspace Semente, o lado profissional não impede o fato de que o trabalho manual tenha um lado zen. “A marcenaria em si nos traz também uma fuga da rotina de prazos, compras, vendas, estresse. Procuramos deixar um tempo nosso para produção de objetos e projetos pessoais, o que nos desliga um pouco da rotina de ‘escritório’. A marcenaria é algo que mesmo estudando uma vida inteira nunca se saberá tudo. A madeira é um material orgânico, vivo, então sempre temos um desafio diferente, como variação das fibras, a temperatura que está no local, a umidade, enfim, todas variações ambientais… A contemplação do objeto produzido se torna algo íntimo entre criador e criatura. E é tudo isso que fez com que nos apaixonássemos por esse universo”, conta Caio.

Foi depois de uma forte crise de depressão que o engenheiro do metrô de São Paulo, com 25 anos de casa, Celso Yamamoto se interessou pela atividade. “Curti muito a empresa, foi bem gratificante. Ficava empolgadíssimo em falar sobre o metrô. Saí de lá exatamente por causa da saúde. Me cobrei muito. Acho que foi um legado da minha família, oriental, que cobrava demais e eu me exigia demais também. Cheguei ao fundo do poço. Estava no meio de 200 pessoas e me sentia só. Fiquei um ano e meio afastado, com pensamentos ruins, fazendo terapia e tomando antidepressivos”, relatou.

Uma amiga de sua esposa estava prestes a fazer um curso e ele, inspirado pela ideia, resolveu fazer também. “Isso fez parte da minha terapia e a crise revelou meu lado meio artista plástico. As crises são uma oportunidade de olhar para dentro. Sou um engenheiro menos sério. Se estou inspirado faço arte, se não estou, não coloco nem uma tinta na peça, com medo de estragar a obra”. O gosto pela atividade tomou proporções tão grandes, que ele largou a antiga profissão para ser marceneiro em tempo integral, abrindo a escola Madeira Viva em setembro de 2000.

Atualmente, é num galpão da Zona Sul onde ele, aos 61 anos de idade, se cerca de parte de seus amores: a cadela brincalhona Teka, livros, plantas, inúmeras peças de madeira e os alunos. No curso, ministrado de segunda-feira a sábado, não existe começo, meio e fim. É um descompromisso e, talvez por isso, seja tão agradável estar ali. O tempo é um aliado, não um inimigo. “Aqui é o ensino de fazer arte em madeira, mas com qualidade de vida. É para saborear o que faz. No geral, as pessoas são muito exigidas e muitas vezes se exigem também. É isso que gera ansiedade, dificuldades… Hoje eu sei disso porque cultivei muitos deuses e um deles foi o trabalho”.

Autodenominada “fazedora e criativa”, a designer Joici Ohashi, de 26 anos, mantinha na infância dois hábitos modernos, que fizeram parte da história de muitos millennials: brincar com peças de LEGO e construir casas no jogo The Sims. As atividades, igualmente prazerosas, ajudaram a despertar seu interesse por trabalhos manuais. Enquanto cursava design de interiores trabalhou numa loja de móveis planejados e depois de formada resolveu colocar a mão na massa. “O que eu mais queria era ter algo feito por mim nas casas de clientes. ​Em 2015 fui para a Oficinalab (antiga LabMob) com intuito de continuar aprendendo e trocar trabalho pelo uso do espaço.​ Foi lá onde percebi que o hobby poderia virar profissão. Após conhecer de perto este ofício pude entender todo o processo de fabricação, que marcenaria não tem como ser ‘pastel’, e a dar mais valor aos materiais”.

O arquiteto Alex Uzueli, sócio da Oficinalab, também participa da palestra sobre marcenaria no Festival Path. Atualmente Joice integra a equipe de professores da escola, dando aulas para pessoas de aproximadamente 25 e 35 anos, mas segue descobrindo as maravilhas da marcenaria. “O aprendizado é empírico. Podem passar anos e anos e ainda terei muito para aprender. Para que tudo ocorra bem, temos que estar totalmente presentes em todos os sentidos, o tato, o olfato, ​o paladar, visão e audição. Cada trabalho manual exige algum desses sentidos um pouco mais do que o outro. E como é prazeroso ver a transformação! A matéria-prima se tornando algo novo, desde o fio de lã que vira cachecol para esquentar e a madeira que vira poltrona para nos sustentar. Acho mágico este processo.", conta Joice.

A natureza, perfeitamente imperfeita, oferece matéria-prima semelhante aos marceneiros e alunos: nenhuma madeira é igual a outra. Há arranhões, fissuras, manchas, curvas, alturas, larguras, resistências e texturas distintas. A partir da relação cultivada com ela, uma peça única se forma, como um embrião, cultivado e esculpido por meses dentro do potencial criativo de cada criatura que a toca com as mãos. É um filho material, que faz os olhos brilharem com o orgulho de quem diz: fui eu que fiz.

Brunella Nunes é jornalista, adepta do slowliving e une seus esforços para desprogramar o lugar-comum do pensamento. Escreve por amor a causa para sites com propósito.

16/04/2018 - 13:48

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