O que aprendi com o balé

Nossa analista de mídias sociais decidiu retomar o balé, que julgava ser algo perdido na infância. E percebeu que é possível dançar em qualquer fase da vida

Adriana Rossatti

Talvez umas das melhores coisas que se aprende no balé são a disciplina e a persistência | <i>Crédito: Vida Simples Digital
Talvez umas das melhores coisas que se aprende no balé são a disciplina e a persistência | Crédito: Vida Simples Digital

Quem vai dizer que Chico Buarque não sabe das coisas? Pois foi ele mesmo que disse: "procurando bem, todo mundo tem pereba; marca de bexiga ou vacina. E tem piriri, tem lombriga, tem ameba. Só a bailarina que não tem..." Eu cresci ouvindo essa música e, como tive uma educação bem tradicional, cresci também fazendo aulas de piano, crochê e balé. Mas o sonho de bailarina foi abandonado muito cedo. Eu era uma criança hiperativa, falante, cheia de imaginação. Aos 10 anos consegui a façanha de ficar em DP nas aulas de balé por indisciplina. Por mais que eu me questione hoje sobre o preparo de uma professora que deixa uma menina de DP por um motivo desses, para mim era muito claro que eu não seria a bailarina de Chico. Rapidamente o gosto pela dança foi varrido para baixo do tapete e eu me conformei em ter apenas marca de bexiga, piriri e lombriga.
  No entanto, cresci praticando muitos exercícios físicos: handebol, natação, ioga, kung fu. Já adulta, me matriculei em academias, fazia spinning, aulas de jump, step, descobri a paixão pela corrida, mas sempre que assistia a uma apresentação de balé sentia um tremendo arrependimento por ter abandonado a dança. Para mim, bailarinas são seres incrivelmente fascinantes. Corpos alongados, firmes e esguios. Pernas fortes, panturrilhas tão duras quanto tijolos, e quando andam, parecem levitar pelo espaço. O porte clássico de princesa. Eu pensava que era tarde demais para mim, afinal, balé era uma coisa que se começava quando criança.
  Até que, um dia, flagrei uma colega de meia-calça rosa e coque na cabeça voltando de uma aula de balé. Eu a enchi de perguntas. "Gente grande também pode?". "Mas você usa sainha e tudo?". "Dá para começar do zero?". Em meia hora de conversa eu estava convencida, com o telefone da escola de dança na mão e rumando para a loja comprar minhas sapatilhas. Minhas primeiras aulas não foram as melhores experiências da minha vida. Cheguei fantasiada, com o uniforme completo, coque e saia combinando com o collant. Foi um alívio descobrir que eu não era a mais velha da sala, e curioso ver quantas pessoas se entregam ao balé pela primeira vez quando já passaram há tempos da considerada idade ideal. Encontrei mulheres de idades entre 25 e 60 anos. E dois homens. Sim, eles também dançam (muito melhor do que eu, diga-se de passagem).

Primeiras aulas

Meu professor era ótimo, simpático, mas um general. Não era por sermos uma turma iniciante que ele exigiria menos de nós. Eu tentava puxar da memória da minha infância as posições de pernas, a nomenclatura dos movimentos, e suava. Pingava em bicas. Quando eu estava me sentindo bem pimpona, fazendo pose de bailarina, segurando a barra e lembrando de todo port de bras (série de movimentos de passagem de uma posição de braços para outra) sozinha, levo um susto com o professor gritando em minha direção: "Adriana, você está parecendo o smeagol!". Olhei para o espelho e constatei em choque que a postura que eu tinha certeza ser a da famosa bailarina Ana Botafogo era, na verdade, mais próxima à do perturbado Gollum de O Senhor dos Anéis. Terminada a aula, fui para o vestiário arrasada... E chorei.
  Quem olha de fora uma aula de balé pode até ter a impressão de que os movimentos lentos e coordenados são tranquilos de serem executados, mas cada um deles exige conexão total de todas as partes do corpo. Logo percebi que, por mais que eu tenha tido uma vida sempre ativa, eu não tinha a menor consciência do meu corpo. Muitas pessoas desistem logo nesse começo exatamente por isso. O balé se revela um desafio maior do que se imagina. Como eu sou uma pessoa teimosa, voltei. E voltei. E voltei por meses. Até conseguir arrancar um elogio do meu professor.

Disciplina e persistência

Embora as nomenclaturas sejam todas em francês, o balé surgiu na Renascença Italiana. Chegou à França com Catarina de Médicis e só depois se tornou popular. Luís 14, o Rei Sol, era um bailarino entusiasmado e, até sua morte, somente homens dançavam. Foi quando chegou à Rússia que essa dança adquiriu muitas características que conhecemos hoje, misturando a vivacidade do balé italiano com a graça e leveza do francês. Um dos grandes responsáveis foi o francês Marius Petipa, que criou as famosas coreografias de O Quebra-Nozes, O Lago dos Cisnes, entre tantas outras. Em seus espetáculos, sempre procurava criar momentos importantes para o corpo de baile, variações de solos para os bailarinos principais e o grande pas de deux com a primeira bailarina e seu partner. A dedicação e esforço que os bailarinos necessitam para atingir a perfeição de movimentos nas coreografias ajudam a fixar em nosso imaginário que esses profissionais estão além de qualquer sofrimento. Além de piolho, verruga e frieira. Mas é esse o segredo dessa dança: mostrar apenas o resultado de tanto esforço. Quando se começa a entender isso, o balé se torna mais fascinante.
  Talvez umas das melhores coisas que se aprende no balé são a disciplina e a persistência. Sem elas é impossível se apropriar dos movimentos. Quando uma sequência de barra pede um simples elevé em primeira posição, por exemplo, quer dizer que estamos com os pés abertos para fora e os calcanhares juntos, formando o ângulo mais próximo a 180º possível, e erguemos os calcanhares até nos apoiarmos em meia ponta. Por mais simples que esse movimento possa parecer, ele exige que o corpo todo esteja alinhado, coluna ereta, nuca alongada, olhar no horizonte, ombros baixos, omoplatas abertas, abdomen rígido, quadril bem encaixado, pernas totalmente esticadas e firmes, mas sem tensionar os joelhos. Isso sem esquecer que a primeira posição pede que não apenas os pés estejam en dehórs (para fora), mas toda a perna, desde o encaixe do fêmur na bacia até o chão. Conseguir realizar um elevé com perfeição é muito mais do que levantar o corpo na temida ponta dos pés.
  Entre os inúmeros benefícios dessa arte para o corpo e para a saúde, como melhora de postura, força muscular, melhora respiratória, coordenação etc, o que mais me beneficiou foi a disciplina do sistema nervoso e a conquista de mais segurança nos movimentos. Sempre fui estabanada, daquelas que são proibidas de entrar em lojas de cristais. Hoje tenho uma consciência melhor do espaço que ocupo. Prestar atenção em cada fragmento do corpo que era exigido para fazer um movimento fez com que eu passasse a ficar mais atenta à maneira como eu me colocava no dia a dia. É assustadora a quantidade de coisas que fazemos no piloto automático. Exatamente por não nos darmos conta dos detalhes é que acabamos virando "golluns" pela vida. O balé tornou-se meu suporte de sanidade.
  Depois que superei as ilusões de ilustrar pinturas de Degas ou dançar no Bolshoi, pude encontrar na dança um aliado sólido para me ajudar a ter foco e superação na minha rotina. Conseguir controlar pequenos detalhes do meu corpo e transformar aquilo em dança fez com que eu me sentisse mais capaz de transformar pequenas adversidades nos meus objetivos finais. Eu passei a entender que não existem fracassos, apenas detalhes ignorados, e a dança só acontece quando conseguimos ser melhores em cada um desses detalhes.
  Todos nós temos imperfeições, defeitos, falhas, até as bailarinas. O que faz com que a vida pareça uma coreografia fácil de se realizar é a dedicação e atenção que damos a cada parte dela. Hoje, quando vejo os 32 fouettés (passo giratório) executados com perfeição no terceiro ato de O Lago dos Cisnes, sinto uma incontrolável vontade de chorar. Acho lindo como uma bailarina pode passar por anos de luta, sofrimento e angústias para chegar àquilo, e ainda assim só nos entregar o melhor.

20/04/2017 - 18:02

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Revista Vida Simples