O que podemos aprender sobre felicidade

Instituto na Dinamarca, país em que boa parte da população se considera feliz, pesquisa o que traz maior ou menor contentamento na vida de todos nós. Fomos atrás de algumas respostas

Isis de Aragão e Thiago Mota

Isabella Arendtt estuda o que gera satisfação (e felicidade) naquilo que fazemos todos os dias | <i>Crédito: Divulgação
Isabella Arendtt estuda o que gera satisfação (e felicidade) naquilo que fazemos todos os dias | Crédito: Divulgação

Eram 10h da manhã de mais um dia frio em Copenhague, capital da Dinamarca, quando chegamos de bicicleta ao Happiness Research Institute (“Instituto de Pesquisa sobre Felicidade”) movidos pelo desejo de compreender o que faz as pessoas e uma sociedade mais felizes. O instituto foi fundado em 2013, pelo ceo Meik Wiking, com o objetivo de responder três questões: como podemos medir felicidade? Por que algumas pessoas são mais felizes do que outras? Como podemos impulsionar a felicidade no mundo?
A Dinamarca é um pequeno país no norte da Europa, com apenas 5,7 milhões de habitantes, e está sempre ocupando os primeiros lugares nos rankings que avaliam felicidade e qualidade de vida. E foi para tentar entender o que faz algumas pessoas ou países mais felizes que fomos conversar com Isabella Arendt, responsável pela área de job satisfaction (“satisfação no trabalho”, em tradução livre), sobre a relação entre felicidade e engajamento. Isabella é apaixonada pelo que faz — e isso já diz muito. Nesta entrevista, concedida para vida simples, ela fala sobre os fatores-chave para a felicidade e o que nos leva a ter maior ou menor satisfação no trabalho.  

As pessoas estão percebendo que o conceito de felicidade tem mudado. Não podemos, por exemplo, ser felizes focando demais no que temos, mas no que somos. Vocês concordam com isso? A definição de felicidade tem sempre mudado e sempre foi múltipla. Nunca haverá apenas uma definição. Porque isso depende de a quem você pergunta. É por isso que nós, a Organização das Nações Unidas (onu) e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (ocde) medimos a felicidade subjetiva. Nesse sentido, nunca iremos definir felicidade, mas deixar que cada pessoa seja seu próprio juiz sobre o que é felicidade para si. Dessa forma nossos resultados não se alteram quando o mundo muda a definição sobre felicidade. Qual seria essa definição? Acreditamos que as relações que tecemos ao longo da nossa trajetória e ter saúde são as coisas mais importantes para criar uma vida de maior satisfação. E, portanto, ficamos contentes quando as pessoas começam a olhar para as relações sociais em vez de focar apenas nos itens materiais. Isso, com certeza, aumenta a felicidade global. 

Existe diferença entre autorrealização e satisfação com a vida? Sim. Você pode ter uma sem ter a outra. Gente que está em busca de si mesmo nem sempre consegue ser feliz. E pessoas felizes nem sempre são aquelas que estão buscando a autorrealização. Felicidade é sobre ter fortes laços sociais, boa saúde e liberdade para fazer escolhas de vida. Isso é algo que pode acontecer com qualquer um, inclusive com aqueles que não estão procurando. Algumas vezes, percebemos que pessoas em busca de autorrealização sentem-se sozinhas, pois focam muito em si mesmas e esquecem de ter laços mais profundos com os outros. 

Vocês falam em felicidade cognitiva e afetiva. Qual a diferença? Felicidade cognitiva é aquela que encontramos quando pensamos na nossa vida no geral. E a afetiva está relacionada aos sentimentos que temos durante o dia. E isso está correlacionado. Se você tiver sentimentos positivos por muitos dias seguidos, a satisfação pela vida irá aumentar. E vice-versa. Mas você pode ter essa satisfação e ainda continuar a ter um dia ruim com sentimentos e emoções negativas. Então a felicidade cognitiva é algo de longo prazo, enquanto que a afetiva é uma felicidade de curto prazo.

De acordo com o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos, o número de suicídios é maior do que as mortes causadas por violência, como guerras e assassinatos, e desastres naturais. Há também estudos que relatam o alto número de casos de depressão e uso de remédios em países mais desenvolvidos. Isso pode ser um sinal de infelicidade? Vou dar um exemplo do que ocorre aqui na Dinamarca,  um país com alto uso de antidepressivos. Isso quer dizer que somos menos felizes? Não necessariamente. Usa-se mais o remédio porque é gratuito e disponível para todos. Em muitos países, há pessoas com depressão que não estão medicadas. E isso acontece ou porque os medicamentos são caros ou porque não estão disponíveis. Portanto, essas pessoas não aparecem nas estatísticas, o que não significa que a depressão não exista. O mesmo vale para os suicídios. Os relatórios só mostram as mortes que tornam-se conhecidas pela polícia e o que é oficial. Em muitos países subdesenvolvidos, eles não têm todos os registros ou a população diz que o suicídio é algo diferente do que é, para evitar um estigma. Então não devemos confiar cegamente nesses relatórios sem antes levar em conta outras variáveis. 

Atualmente muitas pessoas no Brasil estão descrentes no governo devido aos escândalos de corrupção que enfrentamos nos últimos anos. Isso pode influenciar a nossa felicidade? Sabemos que confiança no governo é algo importante para a felicidade — mas somente quando o governo é confiável. Portanto é importante criar uma boa governança e então se livrar da corrupção.

No relatório Satisfação no Trabalho, de 2017, o Instituto fala bastante sobre como as companhias podem desenvolver engajamento entre os funcionários. Você pode explicar sobre o modelo que desenvolvem, o tripé que inclui os aspectos pessoal, social e pelo bem maior? Esse modelo é usado para explicar a noção de significado. Quando queremos ter um alto nível de satisfação no ambiente corporativo, precisamos entender por que trabalhamos do jeito que trabalhamos. Para alguns, o sentido é pessoal, e isso faz com que tenham uma enorme satisfação e orgulho no que desempenham. Para outros, é algo social. Eles se sentem como parte de uma equipe e desejam contribuir para o time. E algumas pessoas trabalham pelo bem maior, por questões de ideologia, são altruístas, religiosas ou algo do tipo. A maior parte de nós possui essas três formas em algum nível. E encontrar esse significado é o fator mais importante para desenvolver e aumentar o engajamento de forma individual. 

Propósito e satisfação no trabalho são essenciais? Sim. Propósito e significado são importantes e essenciais para gerar engajamento e satisfação no trabalho. Para gostarmos do que fazemos, precisamos entender o porquê do que estamos fazendo e também compreender o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, aspectos importantes para prevenir o esgotamento. E, ainda, ter certeza de que todos estão tendo uma vida na qual se sentem bem. Equilíbrio também é importante, pois assim podemos ter um bom resultado nas tarefas diárias e ainda ter tempo e energia para a família e os amigos. Isso irá aumentar o engajamento e a felicidade de longo prazo entre todos. 
 
Ser considerado um dos países mais felizes faz com que vocês se sintam em uma posição confortável? A felicidade não é algo que se conquista e pronto. Há sempre o que aprender. E isso pode vir não só de quem está na mesma posição. Para dar um exemplo, neste momento estamos tentando compreender sobre o senso de comunidade que existe nas favelas do Brasil, algo que o mundo todo pode aprender.

Isis de Aragão e Thiago Mota são fundadores da Novo Expediente e desenvolvem experiências de aprendizagem para um trabalho com mais significado: www.novoexpediente.com

25/06/2018 - 12:28

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