O tempo certo das coisas

Na eterna dificuldade de lidar com o tempo, o nosso próprio e o do mundo, nos questionamos sobre o momento certo de cada coisa, lidando com respostas, ações e frustrações, resultado de escolhas

Gustavo Ranieri

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
- | Crédito: Vida Simples Digital
Lembro perfeitamente de uma noite de sábado, em setembro do ano passado, quando, encostado na pia do banheiro, me emocionei com minha mulher ao ver os dois traços rosa surgirem instantaneamente em um teste rápido de gravidez. A concretização de nosso desejo de sermos pais também trazia uma mescla de outras sensações que se estenderiam por toda a gravidez – algumas mais bem definidas, outras um tanto menos – e, principalmente, uma ansiedade que, como um rastilho de pólvora, se alastrava daquele instante até este mês em que você, leitor, está diante desta matéria, enquanto eu aguardo ansiosamente o nascimento da minha filha Liz. Os nove meses que se passaram permitiram uma série de (auto)avaliações. E, rapidamente, a soma de inúmeros fatores me provou que, prestes a completar 34 anos e atravessando a fase mais plena de minha vida (talvez muita pretensão pensar isso), não haveria tempo mais adequado para a paternidade – será? Enquanto escrevo também investigo o capítulo 3 do Livro de Eclesiastes, no Antigo Testamento, quando o texto – muitas vezes atribuído ao rei Salomão – narra, entre outras coisas:  “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; (...) tempo de guardar e tempo de deitar fora; tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e tempo de falar; tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz”. Em meio a tantos pensamentos, me municio de questões: afinal, qual é o tempo certo das coisas? O quanto esperar por elas e como lidar com a espera até se concretizarem? “Nossas questões são muito prementes, estão calcadas no imediatismo, mas às vezes não estamos preparados para o que desejamos”, ressalta o psicanalista e escritor Jose Carlos Honório. “Penso até no caso da releitura de uma obra. Um livro que li quando tinha 18 anos, ao fazer a releitura dez anos depois, ele se torna outro, porque sou uma pessoa nova e o tempo está inserido nisso”, continua ele, enquanto enumero as publicações que um dia deixei de lado por considerá-las maçantes e que hoje fazem parte da minha lista de prediletas – assim como as que amava e cujas histórias não me dizem mais nada.

Confesso ser um tanto doloroso me deparar, ao redigir este texto, com as memórias dos planos e projetos deixados para trás. Os inúmeros livros de poemas que ensaiei em minha cabeça e concretizei em dezenas de cadernos, sem nunca os ter levado a prelo, assim como permanecer em um trabalho que me fazia infeliz por três anos a mais do que sentia ser o meu prazo de validade na época dentro da empresa – um pedido de demissão que veio além do tempo certo? “Acho que não se pode pensar muito no tempo certo das coisas para realizar algo. Conheço muita gente que por conta dessa história de adiar projetos, tem um monte de textos engavetados, por exemplo, esperando o momento ideal para publicar. Se ficar pensando nisso, não vou escrever, porque nunca acharei que está no tempo certo, e não vou publicar por achar que não está maduro o bastante”, enfatiza Honório. Mas também me alegro ao recordar as medidas assumidas quando tive vontade, os projetos levados até o fim – mesmo, muitas vezes, contra o que a opinião pública (parentes, amigos, cachorros, papagaios e lagartixas...) dizia – e que deram muito certo, trazendo belos frutos à minha existência. Nesse lugar misterioso no qual habitam o tempo certo e o não certo (não certo para quem mesmo?), conto a história da visagista e atriz Fabia Mirassos, que, em certo dia de 2014, apertou o botão ejetar de seu pequeno estúdio de visagismo na residência em que morava, na grande São Paulo, o qual lhe trazia uma vida confortável, mas sem possibilidade de novas aspirações profissionais, para migrar à capital paulista, onde abriu um espaço bem mais amplo, à vista do público e de todas as contas, que triplicaram ao final do mês. Durante dez anos, a quem lhe questionava o porquê de não arriscar um passo bem maior na carreira e condizente com seu talento, ela respondia que estava bom do jeito que era até então. Um dia, teve vontade de experimentar e apostou suas fichas. Abriu o novo espaço e, logo nos primeiros meses, com tudo correndo tão bem, o tempo certo havia se tornado um quadro que ficava vistoso na parede. Mas o tempo, bem, o tempo... Em menos de um ano, Fabia sofreu um grande assalto, que a deixou com um baita  prejuízo. Mas também deixou inúmeros aprendizados. “Quando tudo aconteceu, pensei em fechar meu negócio. Não queria insistir em algo que não deu certo. Mas não fiz isso. As coisas tinham dado certo até aquele momento, então não poderiam dar tão errado. Penso que não há essa questão de tempo certo ou errado. Isso é uma desculpa que a gente dá.” 

Vai nascer
 Quando minha mulher e eu optamos por um parto humanizado domiciliar, nos foi explicado que é o bebê que decide a hora de nascer, o seu tempo ideal. Como enfatiza Ana Cristina Duarte, obstetriz e educadora perinatal à frente do Grupo de Apoio à Maternidade Ativa (Gama), 95% em média dos partos “vão acontecer sem qualquer problema. No entanto, a nossa sociedade aprendeu a intervir como rotina em todas as mulheres e bebês. Nenhum bicho, por exemplo, precisa ser ensinado sobre de quanto em quanto tempo seus filhotinhos devem mamar ou de que lado. Mas é comum você ver mulheres receberem instruções das mais estapafúrdias, como se fosse uma regra que servisse a todos os seres humanos e, na verdade, não é”. Da série de hormônios e outras situações, o corpo da mulher e o do bebê vão se integrando, se correspondendo, enviando mensagens um ao outro, “até que em um momento, a maturidade do bebê determina que é a hora de ele nascer. Todavia, a gente tem sistematicamente interrompido esse processo natural através de intervenções de rotina para acelerar o parto com a ideia de que quanto mais rápido, melhor, e isso não é verdade. Quanto mais suave, melhor para os dois, e a suavidade a gente consegue deixando que essa dupla fique tranquila, com uma acompanhante, uma parteira, esperando a hora deles. A natureza sabe o que faz”. 

Emoção x razão
 Convido para um café o cineasta Alfredo Sternheim, que muito já me contou em outros encontros sobre sua relação com o tempo. Ele não poderia ficar de fora deste texto. Hoje com 73 anos, Alfredo foi um dos diretores proeminentes da sétima arte nacional nos anos 1970. Ganhou na época, dinheiro para uma vida boa, circulava nas rodas da vanguarda artística e acreditava que aquele tempo não só era o certo como seria vindouro. A crise, no entanto, que interrompeu a safra do cinema brasileiro nos anos 1980, alterou seus planos e a carreira. “Quando fiz cinema, dirigia um filme atrás do outro sem ter consciência de que um dia esse tempo ia acabar. Diferente de uma bailarina ou de um jogador de futebol, para quem, por uma questão de idade, chegará o momento de parar, mesmo que cedo ainda, no cinema o cara embarca na profissão sem vontade de se aposentar, ele quer criar pelo resto da vida. No meu caso, as circunstâncias acabaram encurtando o tempo certo das coisas ou o tempo que você acha que é o certo.” Quando percebeu que estava na hora de dar uma virada, o cineasta recebeu uma excelente indicação e uma reunião agendada com um dos diretores da então TV Manchete, que galgava seus primeiros anos. Dentro do ônibus que havia tomado para ir à emissora, Alfredo entrou no embate entre o racional e o emocional. O racional lhe mostrava que ingressar como diretor de TV seria excelente; o emocional apontava que aquilo o afastaria do cinema. A dois quarteirões da TV, Alfredo desceu do ônibus e desistiu. Depois, nos anos 1990, com a retomada do cinema nacional, “e quando surgiu essa nova formatação para fazer os projetos por meio de editais, não consegui me adaptar. Não é que eu estava velho – o Carlão Reichenbach (1945-2012), que era um pouco mais novo, se adaptou a isso e me estimulava a fazer o mesmo. Mas eu, seja por preguiça, bronca ou teimosia, não conseguia entrar nessa. Então o tempo certo também muda de acordo com as escolhas”, enfatiza. 

Esqueça o tempo
 Uma discussão sobre o tempo correto para a realização de algo se cruza, em diversos momentos, com a ideologia e luta constante de um jornalista e escritor cujas ideias me interessam há muito tempo. Trata-se do canadense Carl Honoré, “embaixador” do Movimento Slow e autor, entre outros, do best-seller Devagar (Record), manifesto contra a velocidade desmedida que faz parte do cotidiano da sociedade, e  do seu mais recente livro Solução Gradual (Record). “Estamos tão impacientes que queremos que tudo aconteça o mais rápido possível. Este é o paradoxo doloroso de hoje. Mas, por correr todo o tempo, não conseguimos atingir os resultados que queremos. Conclusão: um sentimento crônico de decepção e frustração. A cultura de consumo gera altas expectativas e também desempenha um papel nisto: ficamos com raiva porque esperamos que tudo seja apenas da maneira que nós queremos. A vida é o que está acontecendo aqui, agora – e apenas ao se acalmar você pode vivê-la ao máximo. O truque é fazer menos coisas, para dar a cada momento o tempo e a atenção que merecem.” Portanto, esquecer a questão do tempo (certo, errado, duvidoso ) e admitir que ele é fruto de nossas escolhas seja talvez a solução adequada. “Sinto que temos medo de realizar algo ou receio de sair da zona de conforto. Mas tenho uma perturbação em mim que me faz sair. Poderia dizer que saio em busca de algo porque estava na hora certa de fazer. Mas não estava nem na hora certa nem na errada. Quando você começa a fazer esse algo, as coisas acontecem, independentemente do tempo”, opina Fabia Mirassos. “Mas e se os anos passarem e não acontecer aquilo que sonhava ou para a qual me dediquei?” Bom, também me questiono bastante sobre isso – estamos juntos! Mas também acredito que as possibilidades são inúmeras e que o orgulho nos cega, olhando demais para um lado apenas e deixando de observar a beleza que se apresenta do lado oposto ou mesmo atrás de nós. “Ah, e se não fui um bom psicanalista como pretendia, não fui um bom escritor, não fui um bom cineasta, um bom artista plástico? Qualquer coisa que eu ache que não fui bom é, então, uma marca para que eu morra?”, o psicanalista questiona e responde: “Não, mas é uma marca para que eu repense tudo o que posso ser de bom, porque o tempo nunca é o que se diz dele. Nunca é tarde, nunca é cedo. É o tempo só”.

GUSTAVO RANIERI é jornalista, profissão de todos os tempos, certos ou não. Neste ano, e por toda a existência, se torna também pai da pequena Liz.

27/05/2016 - 11:54

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