Os desafios da maternidade

Por que evitamos falar das dificuldades e dores pelas quais as mães passam assim que seus bebês nascem?

Diana Corso

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
- | Crédito: Vida Simples Digital
Tinha um bebê lindo, que mamava em paz. Por que lhe rolavam essas lágrimas incompreensíveis? Por que chorava, se isso era a realização de um desejo e estava tudo correndo bem? Ela ficava envergonhada: todas as mulheres dizendo que a chegada de seu filho trouxe-lhes a plena felicidade, e ela, apesar dessa dádiva, chorava? Sentia-se prisioneira, escravizada às vontades daqueles pouco mais de três quilos de pessoa. Invejava todos que saíam de casa bem cedo para trabalhar ou estudar. Parecia que a vida nunca mais voltaria ao normal e de fato nunca voltou àquela normalidade, porque agora ela e a vida eram outras. Choramos quando nos tornamos mães porque ficamos temporariamente despersonalizadas, o corpo e a rotina são outros, e ainda por cima a situação exige profunda entrega. Precisamos oferecer o que já não temos, é difícil dar lugar para mais alguém em uma mente que parece fugir da sua dona. Mal estamos em casa dentro de nós mesmas, inseguras quanto aos vínculos com as pessoas ao redor, e ainda nos culpamos por achar tudo isso indigno de uma mãe.  Recentemente, na internet, foi lançado o “Desafio da maternidade”, que consistia em colocar fotos de mães e filhos felizes. Poucas mulheres ousaram falar do verdadeiro desafio: ir adiante apesar do desânimo, dos pânicos e do estado confusional que também fazem parte do puerpério. Foram apedrejadas, pois essa é uma coisa sobre a qual não devemos falar. Nem nós mesmas ousamos acreditar em algum vacilo no amor materno. Se admitirmos que temos momentos de ambivalência e arrependimento, teremos que supor que quando fomos bebês nossa mãe pode ter sentido coisas parecidas. E isso dá medo. O estado de espírito materno traduz-se numa radical empatia com o bebê, pois no início eles se misturam em pensamentos. Ele queixa-se de um mal-estar difuso, ela transformará isso em vontade de leite, carícias, aconchego. Depois do parto real ela ainda trará à luz a capacidade do filho de desejar e expressar-se, num segundo parto psíquico. A inauguração da maternidade é um tipo de possessão, para a qual ninguém está preparado. A gesta ção, embora espaçosa no corpo, ainda lhe deixava o pensamento livre. Durante o puerpério, enquanto está assimilando a existência real de seu bebê e o fato de que ela é sua mãe, temerá deixar de pensar nele. Nessa época são comuns os pesadelos de esquecer que se é mãe ou de abandonar o bebê em um lugar e dar-se conta tarde demais. A culpa incurável das mães contemporâneas é um cordão umbilical renitente. As autorrecriminações servem para sentir-se em conexão com os filhos mesmo quando estamos distantes. Custa-nos acreditar que eles nos dispensam e existem mesmo quando não pensamos neles. Depois de toda essa trabalheira para colocá-los dentro da cabeça é preciso cortar esse cordão, eles já respiram sozinhos. Sei que as mães às vezes parecem um pouco doidas, mas a maternidade é uma atribulada história de amor e paixões que sabem deixar os nervos à flor da pele. 

DIANA CORSO é autora do livro Tomo Conta do Mundo – Conficções de uma Psicanalista

03/06/2016 - 16:39

Conecte-se

Revista Vida Simples