Pé na estrada (e olho na gurizada)

Manual prático para viajar com os filhos

Caio Vilela

Glórias e perrengues que serão frequentemente lembrados com saudades | <i>Crédito: iStock
Glórias e perrengues que serão frequentemente lembrados com saudades | Crédito: iStock

Chegou o verão. E, com ele, a necessidade de planejar as férias das crianças. Por comodismo, a melhor opção é sempre a mais fácil: um hotel de lazer, uma casa na praia, um sítio, casa dos avós ou qualquer lugar onde não falte diversão para a molecada, enquanto os adultos relaxam com um livro, uma caminhada ou um drinque colorido. Você já viu esse filme. Nada mais justo. Nas férias, todo mundo quer descansar. É duro assumir que sob essa escolha, em prol do comodismo, perde-se a oportunidade sem preço de usar as férias para proporcionar uma experiência enriquecedora para as crianças - e, junto com elas, vivenciar algo diferente. Afinal, viagens são momentos marcantes em nossas vidas, principalmente na infância. E claro que vivê-los na companhia dos pais é um privilégio para filhos de qualquer idade. Quando bem aproveitada, a jornada traz uma preciosa oportunidade de aproximação e aprendizado. E não é necessário ir muito longe.

Explorar as belezas naturais do Brasil ou conhecer outro país com um livro e um mapa na mão já é suficiente para ser personagem de muitas histórias para contar no regresso. Glórias e perrengues que serão frequentemente lembrados com saudades. Memórias mais duradouras que aqueles repetidos passeios em shoppings, as festinhas nos bufês, os filmes descartáveis.

O primeiro passo é deixar de lado o medo e a preguiça; e partir com bom planejamento e segurança para fora da zona de conforto. Viajar com a molecada não é (nem deve ser) uma empreitada cansativa. A maratona por atrativos turísticos e vistas panorâmicas, típica dos adultos, sempre sedentos de novidades, deve ser substituída por lugares bem escolhidos. Muvucas em parques temáticos, filas em supermercados e também as horas excessivas passadas dentro dos automóveis devem ser trocadas por ar puro e momentos mais intensos de convivência.

Nas viagens as pessoas se revelam. A família vira uma equipe e aparece a aptidão de cada membro. Os pequenos tomam iniciativas e quem tem vocação assume a liderança. Em poucos dias nas estradas, cai a ficha: o destino não é o objetivo. Administrar situações novas a cada dia é um desafio diário para pais e filhos, e tudo precisa ser encarado com vontade e bom humor. Mesmo em silêncio, as crianças solicitam ininterruptamente: "Me ensine algo!" Descascar uma laranja, caminhar sobre as pedras, juntar madeira para uma fogueira, aprender um jogo de tabuleiro. Qualquer coisa que as envolva no que está acontecendo fará com que se sintam importantes. Nesse momento nascem a intimidade e o aprendizado. Uma hora vai bater a vontade de voltar. E então acontecerá um dos momentos especiais da viagem: a primeira noite em casa após a grande jornada. Algo muito especial, tenha certeza.

A seguir, descubra as melhores formas de viajar por aí de acordo com a idade de seus rebentos.

De 1 a 3 anos

Nessa idade, nenhum lugar no mundo bate a praia como destino perfeito quando o objetivo é unir diversão e descanso. Poucas coisas são tão gostosas e estimulantes quanto o vaivém de ondas no rasinho e as infinitas brincadeiras inventadas, ali mesmo na areia. Pouca roupa, chapeuzinho e muito protetor solar garantem dias de plenitude e fotos lindas nas câmeras dos pais. O sucesso pleno depende de encontrar uma faixa de areia livre de lixo, cães, multidões, baladas, com poucos mosquitos e sem perigos, inclusive os de mar traiçoeiro. Apostar em destinos pouco evidentes no mapa é uma grande ajuda. Em São Miguel do Gostoso, pouco ao norte de Natal (RN), ou na praia do Cassange, na península de Maraú (BA), tudo isso está garantido. A mesma coisa se deve esperar na Barra de Santo Antônio (AL), onde um passeio seguro de bugue leva às piscinas naturais e falésias coloridas da praia de Carro Quebrado. As praias cearenses de Taíba e Flexeiras, recantos de sossego rodeados de palmeiras, são outras opções de descanso garantido. Para quem prefere juntar tudo isso a um ambiente mais urbano ou até metropolitano, escolha as águas calmas da praia de Jurerê Internacional, em Florianópolis, ou o "baixo bebê", cantinho do Leblon, no Rio, onde há uma ótima infraestrutura para a criançada.

De 4 a 10 anos

Nessa idade as viagens com a família são sempre comemoradas e a ordem é explorar o mundo. As crianças absorvem tudo que há de novo em cada lugar que visitam: participam, aprendem e ensinam a toda hora. Lugares como o museu de arte contemporânea de Inhotim, a 50 km de Belo Horizonte (MG), as cachoeiras da Chapada Diamantina (BA), um passeio de barco até a ilha do Cardoso, no sul do litoral paulista, as cavernas de calcáreo do Petar (SP), a serra da Bodoquena, em Bonito (MS), e a bicharada no Pantanal representam para eles uma avalanche de novas sensações e estímulos.

Fundamental nessa faixa etária é alimentar previamente a curiosidade e o universo imaginário que ronda as atrações do destino escolhido. Um bom atlas, um livro de histórias ou um filme bacana e, claro, uma navegada pela internet criam interesses e um repertório de ideias sobre o que fazer. Se o orçamento permite viagens internacionais, então, uma visita aos castelos britânicos que ambientam as histórias das aventuras de Harry Potter, ou uma passadinha pelo lago Ness e os castelos da Escócia, valem depois, é claro, de ter conhecido as principais atrações e os museus de Londres, que inevitavelmente costumam fazer grande sucesso com os mais velhos. O deserto do Atacama ou os vulcões nevados, com cara de ilustração de livro, que ligam Santiago, no Chile, aos lagos na região central do país, agradam adultos e crianças, em uma viagem que percorre uma geografia diversificada.

De 11 a 16 anos

Na idade do "se vira", o diálogo é fundamental e a confiança, a maior aliada. Como estimular a independência dos adolescentes sem comprometer sua segurança? Acampar, subir montanhas, mergulhar com snorkel, enfim, gastar energias com atividades ao ar livre e lidar com as intempéries da natureza podem trazer momentos de aprendizado, em que os filhos possam se sentir, ao mesmo tempo, seguros e soltos. Uma opção com aventura é o rafting do Jalapão, expedição de quatro dias e três noites no planalto Central do Brasil. Remando durante o dia e acampando à noite, o trabalho de equipe é fundamental para a harmonia de uma temporada de lazer e exercícios adequados à família. Na categoria internacional econômica, na Patagônia argentina é possível passear de trenó com cães em Ushuaia, observar pinguins e baleias na península de Valdés, caminhar sobre glaciares monumentais em Calafate ou se arriscar sobre esquis em diversos pontos dos Andes. Mas são apenas ideias de férias ativas cheias de novas situações para lidar.

O ideal é estimular a percepção e o autoconhecimento de cada jovem na hora de escolher que tipo de coisa o levaria a avançar um grau acima, dentro do universo de seus genuínos interesses pessoais. Seja surfar na California, estudar idiomas no exterior ou visitar museus de arte na Europa. O jovem é quem deve escolher.

Família viajante

Desde que nosso primeiro filho nasceu, levá-lo conosco para onde quer que fôssemos sempre foi prioridade. Aos 2 anos, Tomás já havia tomado banho nas cachoeiras da Chapada Diamantina, subido montanhas na serra da Mantiqueira a bordo de uma mochilinha própria para carregar bebês, corrido solto nos pampas gaúchos e nas praias nordestinas e visitado desertos, picos nevados, ilhas e cidades em sete países diferentes. Com o nascimento de seus irmãos gêmeos, pouco mais de dois anos depois, o ritmo diminuiu, mas o ecoturistinha jamais se aposentou! Entre as viagens mais ousadas feitas em família após a chegada de Martin e Artur, estão uma visita às cachoeiras e comunidades ucranianas na região de Prudentópolis, no Paraná, duas semanas a bordo de um motor­home alugado nos parques nacionais de Utah e do Arizona e um acampamento de verdade (na frente de um chalezinho alugado) na praia do Sono, próximo a Parati (RJ). Mesmo com todas as mudanças de clima e quebras de rotina durante as viagens, os meninos nunca adoeceram, e de brinde, aprenderam a comer de tudo, a se virar em qualquer língua, mesmo quando não falavam língua nenhuma, e descobriram que nossa casa fica exatamente onde estamos todos juntos.

04/05/2017 - 19:08

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