Pela calçada

Caminhar por aí, seguindo o calçamento, pode ser uma maneira de se sentir mais próximo da cidade, das pessoas e da gente mesmo

Tony Nyenhuis e Wans Spiess

Calçada é território para conhecer a si mesmo e à cidade | <i>Crédito: Tiago Gouvêa
Calçada é território para conhecer a si mesmo e à cidade | Crédito: Tiago Gouvêa

Eu ando, tu andas, nós andamos. O verbo andar é um dos mais belos da nossa língua. Primeiro vem amor, depois vem andar. Necessariamente nessa ordem. Melhor ainda quando caminham juntos. Certamente me apaixonei pela palavra andando pela cidade. Um gesto de afeto na esquina, uma música que lembra a infância, os cheiros de comida que escapam pelas janelas, flores, chuva, pipoca, cachorro, gato e passarinho. Imagina se de carro, vidro fechado, ar-condicionado, voz de Waze, se chega tão longe na cidade — e com a gente mesmo...
Andar é uma das primeiras coisas que aprendemos na vida. Depois das primeiras palavras nos ensinam os passos. Daí caímos, levantamos, caímos, levantamos, e seguimos tateando os caminhos. É uma pena que, quando se tem domínio da técnica, o andar fique tão automático que crescemos perdendo a percepção da beleza desse movimento tão nosso. A boa notícia: sempre é tempo de se reconectar com ele. Foi só quando entrei na faculdade que me reconectei com o movimento do pé ante pé. Na região central da capital paulista, andar pelas calçadas tornou-se não só necessário como também prazeroso. Lembro-me como se fosse hoje do cheiro do churrasco grego no caminho do metrô à faculdade. Ainda era cedo e os pedaços de carne amontoados já rodavam em grandes máquinas metálicas. Ao redor da iguaria reunia-se gente em busca de um emprego (ou de esperança), motoboys, aposentados, boêmios, homens-placa e outras figuras típicas do centro de São Paulo. Sem falar dos diferentes estilos arquitetônicos que também insistem em coexistir. Fui aprendendo a identificar o neogótico da Catedral da Sé, o eclético do Teatro Municipal, o colonial português do Pátio do Colégio e toda a história da formação da cidade.
Numa época em que o mundo virtual dava seus primeiros passos — veja bem, estamos falando do início dos anos 90 —, eu dava passadas largas pelo meu “Google Street View” da vida real. Mas o que aprendi mesmo vai muito além dos sentidos. Ao caminharmos pelas calçadas de São Paulo, cruzamos com gente de origem árabe, chinesa, africana... e nem nos damos conta disso, porque, naquele espaço, os passos e até a pressa são bem iguais. É o privilégio de viver em uma das capitais étnica e culturalmente mais diversas do mundo. Caminhar ensina a verdadeira democracia: que a cidade é lugar de acolhimento, não importando raça, crença ou a sua posição na pirâmide social.
 
Um convite
Estou contando tudo isso para lhe fazer um convite e propor um experimento. Ande! É bem fácil dar o primeiro passo. A esquecida calçada leva a descobertas e sensações inacreditáveis. Quer saber como? Se existisse um guia para essa experiência o capítulo de número um seria, claro, botar o pé fora de casa com a mente bem aberta (e sem os fones de ouvido). Tire uma foto, com o celular mesmo, de um detalhe em que você nunca reparou, pelo excesso de pressa ou pela falta de atenção, na calçada da sua rua. Um desenho caprichado, uma forma surpreendente do piso, um colorido inesperado.
Na capital paulista, por exemplo, a calçada com o desenho do mapa do Estado é um símbolo da cidade. É obra de gente como a gente, da Mirthes Bernardes, uma funcionária pública que ganhou um concurso nos anos 60 para escolher o padrão do piso de São Paulo. O desenho simples e criativo dela está espalhado por vários lugares, no centro e nos bairros. Já na Liberdade, região de colonização japonesa, quem acompanha nossos passos é o poderoso Deus do Trovão (Kaminari). Seu símbolo, “mitsudomoe” (uma lindeza), estampa lajota sim, lajota não as calçadas do lugar. E tem o passeio em frente à tradicional Biblioteca Mário de Andrade, entre as ruas Consolação e São Luiz. Seu tracejado em ponto cruz forma um mosaico de 1000 metros quadrados e tem a palavra “Biblioteca” escrita em nada menos do que 12 idiomas, entre eles russo, coreano e hebraico. Ali, dá até para brincar de caça-palavras, mesmo sem ser criança. Muitos grafismos são assim, pensados como obras de arte. Outras imagens são formadas aleatoriamente por folhas e flores que caem no chão, pelo grafite que escapa dos muros, pelo amassado do papel de bala, das bitucas de cigarro e da fruta pisada. Basta um olhar generoso e apreciativo para a calçada que você pisa e a mágica surge bem na frente dos seus pés. Prometo que você vai se surpreender. 

Calçada é palco
A verdade é que a calçada, dependendo do seu olhar, pode ser generosa como um palco em dia de espetáculo. Preste atenção no balé das suas pernas e pés na cidade. Siga caminhando, detenha-se nos pés te levando a passear. Aprecie a dança: uma perna levanta, o pé da outra perna toca o chão. Como todo palco espera abrigar uma boa história, vale todo tipo de enredo. Pensar como era o bairro há 30 ou 40 anos. Cem anos. Duzentos mil anos, 1 milhão de anos. Outro dia cheguei a ver até dinossauros no bairro do Paraíso, região central de São Paulo. Escute o som das suas passadas. E se pudesse ver a imagem, como num filme, de quantas vezes passou por ali e em quantas situações diferentes? Indo comprar pão de chinelos, em um primeiro dia de trabalho, de mãos dadas com alguém especial, as costumeiras voltinhas com o cachorro inesquecível que se foi, esperando a chegada de um filho, fazendo planos das férias, sonhando acordado ou escondendo as lágrimas para que ninguém perceba a tristeza que brota por entre os olhos. Trajetos de afetos nos afetam, suas memórias estão igualmente marcadas no local de passagem. Acredite.
Siga caminhando. Entre em uma rua de feira, onde o asfalto vira calçadão por algumas horas. Deixe-se levar pelo aroma das frutas e legumes fresquinhos, pelos gritos em busca de atenção e de clientela, pelas cores vibrantes e a organização meticulosa da mercadoria exposta nas banquinhas. O feirante é um artista ou um guerreiro? Ouça como vendem seu peixe à freguesia, ria das suas brincadeiras. Aceite amostras grátis de toda fruta que oferecerem: mamão, melão, ameixa, fruta-do-conde, jaca. Você nem percebeu e tem uma salada de frutas na sua barriga. A propósito, quanto já andou até agora? Se aceita um conselho, use umas moedinhas e compre um pastel e um caldo de cana. 
Continue andando, avance pela cidade. Ela é sua. Logo ali na frente outra foto. A calçada de caquinhos vermelhos lembra a casa da minha avó. Que saudades tenho dela, das comidas que fazia, dos causos que contava, do jeito como me olhava, dos conselhos que dava. Quem mais deixava a gente brincar na calçada desde que, claro, não nos afastássemos muito do portão? Quanta falta a senhora me faz. Será que ainda vamos nos ver algum dia? A senhora tinha certeza que sim, tenho as minhas dúvidas. Também faltou dizer tantas coisas ao vovô, espero que estejam bem. Sei que estão.
Olha, preciso falar: nada de fones de ouvidos. Deixe a música para outro dia, hoje não. Só se for música de artista de rua. Este, sim, sabe fazer calçada de palco, e vice-versa. Pare para ouvir. Cante o refrão ou, se não souber, apenas mexa a boca. Bata palmas no fim da apresentação, deixe uma moedinha ou elogie. Faça os dois, de preferência. Siga andando. Mais uma foto, agora de uma declaração de amor. Foi escrita em um cimento fresco de calçada. “Vivi, te amo.” Nunca tinha reparado nessas declarações de amor, mais comuns do que se imagina. Quem será que é Vivi, Viviane? E o autor ou a autora da declaração na calçada? Será que estão juntos? Você, sem perceber, tirou a foto de joelhos, para ficar bem de pertinho. Quem passa olha estranho, você abre um leve sorriso e nem liga. O dar de ombros, saiba, é um sinal espetacular. De quem já entendeu os vários caminhos do andar. Palmas! Fecham-se as cortinas. 

Pedras no caminho? 
Claro que, assim como na vida, nem tudo é incrível o tempo todo. Quando se fala em calçada, então, virou até lugar-comum falar mal delas. Em quase todas as cidades brasileiras desenrolam-se problemas: calçadas quebradas, abandonadas, sujas, esburacadas, cheias de desníveis, com pouca ou nenhuma acessibilidade para cadeirantes, cegos, idosos ou mães com carrinhos de bebê. Talvez a cultura do culto ao automóvel tenha nos levado a uma legislação estranha: o responsável pela calçada é o dono do imóvel em que ela se localiza. Com a falta de padrão, cada um constrói como pode ou quer; e a falta de fiscalização das prefeituras resulta em calçadas pouco convidativas e perigosas. Some-se aos problemas estruturais e culturais a incômoda e inaceitável questão da falta de segurança pública. Mas podemos aprender com os obstáculos e perceber que o principal requisito para termos cidades caminháveis e seguras é a ocupação urbana, é tomarmos posse do que é nosso. Andar pode ser visto como um ato de resistência. Um belo primeiro passo! Uma coisa é certa: antes de andar de bicicleta, carro, ônibus ou metrô, somos todos pedestres. A mobilidade do futuro é a “intermodal”. Nas cidades (onde viverá grande parte da população mundial) é possível que o dia seja assim: sair de casa a pé, alugar uma bicicleta na esquina até o metrô, seguir andando até o ponto do ônibus ou do trem, e caminhar até o destino final. Vai inexistir espaço para veículos individuais, a prática de uma pessoa se locomover presa a toneladas de lata. Se esse é o futuro, segundo especialistas, melhor olhar hoje com atenção para a calçada, a plataforma do caminhar. Vale pensar além, pois ocupar a cidade andando é criar novas conexões com a localidade e as pessoas. Cidadania e humanidade na veia. Uma experiência com a gente mesmo, que ultrapassa a visão de transporte ou de mobilidade. Outro dia alguém na rua assinalou lindamente: “Temos que andar, a vida é movimento”. O caminho é bem por aí.

Tony Nyenhuis e Wans Spiess criaram o projeto CalçadaSP (@calcadasp), no qual instigam um olhar apreciativo para o calçamento.

25/06/2018 - 12:19

Conecte-se

Revista Vida Simples