Política e você

Saiba por que ela sempre faz parte da sua vida, mesmo que você não queira, e descubra como atuar no local onde vive - sem precisar se envolver com partidos ou programas eleitorais

Diogo Antônio Rodriguez

Reciclar o lixo, parar na faixa de pedestres, dar bom dia ao vizinho: essas são todas atitudes políticas | <i>Crédito: iStock
Reciclar o lixo, parar na faixa de pedestres, dar bom dia ao vizinho: essas são todas atitudes políticas | Crédito: iStock

Corrupção, escândalos, falta de representatividade. Não é à toa que as pessoas se sentem afastadas da política. Segundo uma pesquisa encomendada pelo Senado Federal em 2011, apenas dois em cada dez brasileiros declaram ter um interesse "alto" pelo tema. Mas a verdade é que não é só em Brasília que mora a política. Nem só nos partidos, eleições e programas eleitorais. Com eleições municipais se aproximando, em outubro, é bom lembrar que esse poder é e deveria ser de todos nós.

Reciclar o lixo, parar na faixa de pedestres, dar bom dia ao vizinho: essas são todas atitudes políticas. Elas podem não envolver leis e disputas partidárias, mas toda vez que tomamos atitudes envolvendo a vida de outras pessoas próximas a nós, ou em nossa comunidade, estamos tomando uma posição política. Até quem diz odiar e não ligar para o assunto está tendo uma atitude política. "A política está no dia a dia, porque ela está na comunidade", diz Mário Sérgio Cortella, filósofo e professor da PUC-SP e autor de Política para Não Ser um Idiota (editora 7 Mares). "Seja ela um prédio, um bairro, uma cidade, uma nação, um planeta", afirma.

Filósofos e cientistas sociais pensam há séculos no significado da política, que já foi considerada a mais nobre das atividades humanas. Para entender a raiz dessa atividade, tão desacreditada hoje, é preciso perceber que ela é muito mais que o jogo político oficial. Renato Janine Ribeiro, filósofo e pesquisador, resume em um trecho do livro Política Para Não Ser Um Idiota: "Política é o mundo feio, em que os políticos mandam. Não temos muito a ver com eles." Pois é aí que está o engano.

Um privilégio

Um dos maiores pensadores gregos, o filósofo Aristóteles, declarou: "O homem é por natureza um animal político". Ela estaria tão entranhada em nossas vidas que seria (ou deveria ser) parte do que nos define como seres humanos. Os gregos foram alguns dos mais fervorosos defensores dessa arte. Para eles, a vida em comunidade era um valor admirável e participar das decisões da cidade era visto como um privilégio dado pelos deuses.

Em Atenas, a política estava aberta a todos que dispusessem de tempo para se dedicar aos debates e votações. Era impossível pensar na vida sem política e ela se realizava na vida cotidiana. Aristóteles foi ainda mais longe, e afirmou que a finalidade da política é trazer a felicidade.

Claro, os tempos mudaram. Nossas comunidades são muito maiores que a Atenas daquela época, e até o conceito de felicidade mudou. Hoje milhões de pessoas vivem sob um mesmo governo e seria impossível que cada cidadão participasse da discussão de cada aspecto da administração de uma cidade, estado e país. Por isso, elegemos representantes, os políticos. Eles assumem o papel de argumentar e de conduzir a confecção das leis.

Democracia e futebol

E é aí que a coisa emperra, pois nos sentimos desanimados com um sistema político corrupto e que não representa os interesses dos cidadãos. Mas, por mais que fiquemos indignados com o que fazem nossos representantes e tomemos a decisão de não acompanhar mais as notícias, continuamos a viver e a respirar a política. "Nesse sentido, nenhum de nós escapa da ação, reação e interação política, mesmo que não deseje", afirma Mário Sérgio Cortella.

Não foram poucas as vezes em que mudanças foram construídas pela própria sociedade para só depois serem incorporadas às instituições. Para Luiz Felipe D¿Ávila, diretor do Centro de Liderança Pública (CLP), o poder informal tem enormes vantagens que, muitas vezes, as pessoas subestimam. Revoluções incríveis ocorreram a partir de pessoas que não tinham nenhum cargo importante, por exemplo. "Mahatma Gandhi conseguiu fazer o movimento de independência da Índia sem ter um cargo formal durante toda sua campanha de mobilização. Martin Luther King conseguiu mobilizar todos os Estados Unidos em torno dos direitos civis dos negros também sem ter uma posição oficial", diz ele. O poder de mobilizar as pessoas em torno de propósitos claros e projetos é enorme.

Um exemplo curioso e brasileiro aconteceu nos anos 1980. O país vivia o fim da ditadura militar, mas ainda sem perspectiva de fazer eleições presidenciais diretas. Começava uma mobilização chamada Diretas Já, que envolveu muitas pessoas dentro e fora da política tradicional. Entre elas, um time de futebol, o Corinthians. Para dar o exemplo, a direção deu a liberdade de os jogadores tomarem as decisões do time por voto direto. Tudo era colocado em debate e votação, "até se o ônibus ia parar para alguém fazer xixi", contou o jogador Sócrates no livro batizado com o nome do movimento: Democracia Corinthiana (editora Boitempo). Para Wladimir Rodrigues dos Santos, 58, ex-lateral e um dos destaques da "Democracia", aquilo "foi uma oportunidade de mostrar às pessoas a importância de interferir na sua microrregião, microssociedade, uma situação em que os atletas de futebol pensavam não só na sua situação pessoal, mas no coletivo". O alcance da política atinge os mais distintos locais de convivência humana, em qualquer área.

Destino conjunto

O que fazer, então, para não fugir da raia e cumprir a missão humana da convivência? Primeiro, é preciso pensar que a política é algo dentro do nosso alcance. Luiz Felipe D¿Ávila dá a pista do primeiro passo: "A política não é coisa de cientista político, ela é coisa das pessoas. Coisa do povo", diz. "Não é gente que fica pensando tese. Se você não transformar essa tese em ação, ela não existe. Política é ação. O animal político do Aristóteles é isso." Não adianta só esperar acontecer, como diz a música. Vale lembrar que não existe política individual; existe ação individual na ação política. "Como diz o clássico poema do John Donne, nenhum homem é uma ilha, portanto, a política é o fato de que nós em arquipélago vivemos." Outras sugestões para atuar politicamente você confere no quadro ao lado.

Na última parte de Política para Não Ser um Idiota, Cortella e Renato Janine Ribeiro discutem a necessidade da política em um mundo que luta contra a destruição que a própria humanidade vem causando à natureza. Na penúltima página, Ribeiro define o quanto ainda precisamos viver em comunidade e, portanto, dar valor à política: "Nossa sociedade pode ser muito individualista, mas nosso destino será jogado em conjunto". Melhor que nos afastarmos definitivamente da política para não termos de lidar com escândalos é retomarmos suas rédeas para de fato tentar melhorar as coisas. Esse é um exercício que faremos juntos, em comunidade.

Manual de política 3.0

 

Torne-se uma pessoa muito mais atuante agora mesmo - sem precisar se envolver com partidos e programas eleitorais

 

Atue na sua comunidade: preocupe-se com a associação de bairro, o centro acadêmico, a segurança do condomínio, o destino do lixo do prédio.

Faça algo pelo coletivo. Não precisa ser uma ação de solidariedade: vale organizar um coral, um clube de leitura ou um jogo de futebol semanal.

Informe-se. Para agir, é preciso saber o que acontece. Nossa tendência é nos alienarmos, portanto, é preciso um esforço para acompanhar os fatos e saber analisar, de forma independente, o que ocorre.

 Não fuja da raia. "Quem está em comunidade e decide não participar acaba se tornando escravo da alienação em que se coloca", diz Cortella. O mais importante é participar.

Atenção para as novas ferramentas. Por meio de sites e e-mails, é fácil se conectar com pessoas com interesses afins. Participe de um fórum sobre um tema que o interessa ou inicie uma lista de discussão no seu prédio.

Fiscalize. Também por meio da internet, dá para acompanhar o que fazem os políticos em quem você votou. Sites como webcitizen.com.br e votenaweb.com.br permitem acompanhar o andamento de projetos, por exemplo.

22/05/2017 - 20:20

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Revista Vida Simples