Que decepção...

Na vida, nos decepcionamos com situações e também com pessoas. Saber lidar com esse sentimento é essencial para seguir em frente com maturidade

Eugenio Mussak

Na vida, nos decepcionamos com situações e também com pessoas | <i>Crédito: Shutterstock
Na vida, nos decepcionamos com situações e também com pessoas | Crédito: Shutterstock

Quantas vezes você já se decepcionou na vida? Eu perdi a conta. Aliás, há um jeito de medir a vida pelo número de vezes que se faz algo de que se gosta... ou que não se gosta. Tem gente que mede isso pelos vinhos que tomou, pelas viagens que fez, pelo número de cachorros que teve, pelos livros que leu, pelos amores que viveu. E há quem faça essa conta pelas decepções que teve.
Opções de avaliação à parte, a verdade é que a decepção, assim como a gripe, faz parte da vida, e vamos ter que lidar com ela, por mais que tentemos evitá-la. Você já foi a um restaurante famoso que deixou a desejar? Já leu um best-seller que não conseguiu terminar? Já assistiu a um filme que não honrou o livro em que foi baseado? Estou certo que sim. E esses são apenas alguns exemplos bobos de decepções que vamos colecionando, pois restaurantes, livros e filmes que nos decepcionam são coisas pequenas. O pior é quando isso acontece com pessoas, com profissões ou com ideologias. E basta estar vivo para que isso ocorra. Não tem como fugir.
A decepção é uma espécie de dor psicológica cuja origem está na não realização de uma expectativa, o que nos leva a concluir que a única forma de evitar decepções é não criar expectativas, e ponto final. O problema é que isso é uma impossibilidade, pois a cada vez que nos colocamos em uma empreitada temos, sim, a expectativa de um resultado. Seja um projeto de trabalho, uma atividade de prazer ou uma relação humana. Sem expectativa não há movimento.   
Um estudo sobre a sociologia do trabalho, realizada por profissionais de recursos humanos, mostrou que a principal função do RH é funcionar como um “mediador de expectativas”. E isso se deve ao fato de que a empresa, quando contrata uma pessoa, tem expectativas em relação a ela, ao mesmo tempo em que a pessoa tem expectativas em relação à empresa. 
A empresa espera resultado, agregação de valor e comprometimento. A pessoa espera reconhecimento, oportunidades e orgulho de pertencer àquela empresa. Expectativas legítimas, que, por serem múltiplas, são também um campo fértil para o surgimento da decepção. E o RH está no meio, equilibrando as expectativas e contornado as decepções. Nobre tarefa.
O mesmo se dá nas amizades, namoros, casamentos. Essas são relações cheias de expectativas e, ao contrário das relações de trabalho, são fortemente comandadas pelo emocional, que é pródigo em gerar expectativas. Sentimentos não aceitam argumentos, pois estes os impediriam de existir. E lá vamos nós, pulando de cabeça em uma água turva. Chance de dar certo? Existe. Chance de quebrar a cabeça? Também, e é nisso que reside a grande emoção. 
Recentemente, uma amiga, recém-separada, pediu para falar comigo, pois tinha sido eu a apresentar o casal, dois anos antes. Saímos para um café, e ela falou sobre suas mágoas durante uma hora, revelando sua decepção com o ex, e com os homens em geral, afinal, aquele tinha sido seu terceiro casamento, e os problemas e defeitos haviam apenas mudado de endereço. Eu escutei, acolhi e entendi. E confesso que estava um pouco decepcionado. Não com ele, nem com ela, e sim com as relações humanas, pois olhando de fora aquele parecia ser um casal que tinha tudo para dar certo. Os dois eram inteligentes e tinham interesses em comum. Mas, como cantou Carly Simon depois de se separar de James Taylor: “It happens everyday / Two lovers with the best intentions to stay / Together, they decide to separate” (Acontece todos os dias / Dois amantes com as melhores intenções de ficar / Juntos, eles decidem se separar). No fundo, todo o discurso-desabafo de minha amiga tinha a ver com o binômio expectativa-decepção. Só que, olhando de perto, o problema não estava com esse binômio, pois ele é previsível. Estava mesmo é com a incompetência dela — provavelmente de ambos — para lidar com ele. 
O fato é que não há relação sem expectativa, nem expectativa sem alguma dose de frustração. Se não entendemos isso, a decepção é inevitável, e o resultado é o sofrimento. Personalidades maduras lidam melhor com essa pegadinha do destino. O problema é que é muito mais fácil falar do que fazer, pois estamos no mundo dos sentimentos, e eles, por definição, não são racionais, ainda que o jornalista americano Daniel Goleman tenha escrito 400 páginas sobre a inteligência emocional, abrindo espaço para uma nova especialidade da psicologia. Duvido que ele mesmo nunca tenha se frustrado e se decepcionado na vida. 
No final do café, minha amiga, talvez aliviada com o desabafo, abriu um largo sorriso e declarou que ela estava bem, que a vida tinha que seguir, que estava olhando para a frente, e que era uma otimista incorrigível. O que estava sinalizando, acho, é que já estava de olho em alguém. Ótimo, pensei eu. Ao mesmo tempo em que não pude deixar de refletir sobre o otimismo, essa tão importante postura que nos permite manter o passo e seguir em frente. 
Quando o assunto é decepção — dizem os especialistas — estamos falando de algo mais frequente na vida dos otimistas do que dos pessimistas. Faz sentido, pois são justamente os otimistas que criam mais expectativas. São eles que acreditam que tudo vai dar certo, e essa é uma grande força que colabora com os acontecimentos, com as realizações e com o progresso. Precisamos dos otimistas. Mas, como toda moeda tem duas faces, e os resultados dependem também dos fatores externos, é claro que nem sempre as coisas acontecem como esperávamos. Afinal, “a gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar, mas eis que chega a roda-viva, e carrega o destino pra lá”, disse o compositor Chico Buarque. E é quando o otimista tropeça. Mas, como é otimista, cai, levanta e segue. E, lá na frente, se encanta com o sucesso ou se decepciona com o fracasso de seu otimismo.  
Se é uma escolha, prefiro correr o risco de me decepcionar. Se a decepção tem a ver com a expectativa, esta tem sua origem no encantamento. Concluo então que só os encantados com a vida é que se decepcionam. Mas são justamente esses os que também criam momentos que nos fazem acreditar que a vida vale a pena, ou vale o risco da decepção, pois ela é, e sempre será, apenas passageira. Um mero detalhe...

Eugenio Mussak diz que escreve procurando evitar a decepção de seus leitores. Às vezes consegue...

24/05/2018 - 13:30

Conecte-se

Revista Vida Simples