Sabedoria de parede

Ela vê tudo: nossa rotina em casa, a impermanência das relações, o que escondemos dos outros, a dança das emoções

Gustavo Gitti

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
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EssE homEm pEndura em mim tudo o que lhe parece belo ou sábio, talvez porque eu seja um exemplo de estabilidade. De fato, eu não me abalo, exceto nos dias em que as construtoras fazem a fundação dos prédios ao redor. Eu já vi muita coisa: antes dele tinha uma senhora, antes dela tinha um casal com crianças… Muito interessante como ele acha que sou dele, que pode se encostar e me pintar à vontade. É que ele não para, senão poderia aprender muito comigo. Está sempre correndo, reagindo a telas e movimentos de todo tipo, sem intimidade com aquilo que não se move. Ele se interessa por objetos e conteúdos mais do que pelo espaço onde surgem e cessam. Acompanhei suas noites tocando berimbau, buscando felicidade em filmes, roendo as unhas, lavando a louça, às vezes chorando em posição fetal no corredor. Se eu fosse uma daquelas câmeras de segurança, seria hilário repassar seus movimentos em fast-forward. Depois ele conheceu a Sandra. No começo era “Ó, ser livre com uma vida ampla, por favor, será que você se alegraria em jantar comigo na sexta?”. Hoje é “Eu já tinha falado para meu pai que você iria, então deixa esse trabalho pra depois!”. Quando eles transaram pela décima primeira vez, não comprei o “Você é especial”. Quando eles brigaram pela oitava vez, também não comprei o “Eu te odeio”. Depois de três horas de choro e argumentação, nenhuma mágoa 
se consolida no espaço livre – não só em mim mas na mente deles. Tô te falando: eles poderiam aprender comigo a não colocar tanta seriedade nas coisas. Sem teimosia, sem discursividade, o fluxo emocional não dura quase nada. As paredes não comentam, não fofocam, não reagem, não julgam. São serenas. Manifestam um sorriso que não oscila diante dos enroscos que presenciam. Ao mesmo tempo, não há indiferença, há amor: o espaço silencioso recebe, acolhe, acomoda, possibilita, apoia, nunca se cansa, porque não há esforço pessoal envolvido. Ontem a Sandra fez algo extraordinário: tirou de mim um pôster motivacional, pegou uma almofada, cruzou as pernas, repousou as mãos sobre os joelhos com as palmas para baixo, alinhou a coluna, recolheu o queixo, elevou o esterno, soltou a respiração e enfim relaxou. Seus olhos se abriram de frente pra mim, como se me atravessassem. Por 15 minutos, ficou paradinha como eu. Que felicidade! Quando ele saiu do banheiro, tomou um susto: a visão de alguém imóvel é poderosa. O ambiente silencioso, ao qual ela se harmonizava, imediatamente o acalmou e suavizou seu deslocamento pela casa. Agora começamos uma relação mais profunda. Vamos praticar estabilidade, sabedoria e compaixão e seguir o treinamento além dos tetos, com quem está testemunhando há tempos toda a família humana: o céu. ƒ

GUSTAVO GITTI é coordenador de uma comunidade de florescimento humano. Seu site é olugar.org.

20/12/2016 - 17:26

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