Sem esforço

Procure pela ação mínima, que derruba o primeiro dos 100 mil dominós, mas sem batalha ou suor excessivo

Gustavo Gitti

Não por acaso, nossas ações vêm acompanhadas de muita tensão, o que nos obriga a compensar o desgaste em folgas programadas | <i>Crédito: iStock
Não por acaso, nossas ações vêm acompanhadas de muita tensão, o que nos obriga a compensar o desgaste em folgas programadas | Crédito: iStock

Vivemos em uma cultura do esforço. Apesar de secretamente admirarmos a malandragem de quem se dá bem por atalhos, publicamente valorizamos o trabalho suado. Não por acaso, nossas ações vêm acompanhadas de muita tensão, o que nos obriga a compensar o desgaste em folgas programadas. Mas será que não é possível produzir um grande movimento quase sem esforço
  Sente-se no balanço de um parque e tente fazer você mesmo o arco que o assento faria. É assim que vivemos. Fazemos demais, como se não confiássemos que o balanço vai, por si só, bem melhor do que sob nosso controle. Encontramos a mesma dinâmica no ritmo e no treinamento da mente: "não bata, deixe a baqueta cair" e "não puxe nem empurre o ar, deixe a respiração acontecer" são instruções comuns. A ação sem esforço só acontece quando nos comunicamos com algo que nos transcende, quando operamos em rede, com inteligências e motivações coletivas. Criticar a cultura do esforço, portanto, é criticar a cultura do sucesso pessoal: assim que se revela o autocentramento, discursos heroicos perdem o brilho. Trocamos o orgulhoso "foi com muita luta!" por "foi um milagre".
  Em vez de forçar um movimento, seja um projeto ou uma relação, podemos concentrar nossa energia em construir um mundo no qual o evento desejado seja uma decorrência natural. Andar um pouco, parar e observar como as pessoas se movem. E só depois andar de novo, devagar, dando tempo para cada processo amadurecer coletivamente. Há algum empenho, claro, mas a sensação é de não-ação, pois a força que exercemos é sempre minúscula perto das forças que de fato fazem algo florescer. É como se nosso maior trabalho fosse o de se posicionar em uma grande onda, não o de formá-la.
  Se nossas decisões contemplam e favorecem o movimento de muitos seres, elas são impulsionadas na exata medida em que impulsionam, como se estivéssemos sendo sustentados - brota alegria onde havia fadiga. Longe da passividade, essa atitude serena é mais transformadora do que uma correria. Um exemplo: surgiu a ideia de nos encontrarmos pelo País para ver um documentário sobre felicidade genuína e conversar sobre como estamos vivendo. Compramos vários dvds, enviamos pelo correio, a rede se auto-organizou e 290 pessoas se juntaram em 13 cidades. Tudo em duas semanas, sem esforço. Operar assim, em pequenos milagres, reduz o risco de gastarmos energia patinando em ações individuais forçadas.

20/04/2017 - 17:50

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Revista Vida Simples