Sem temer o pesadelo

A escuta profunda e atenta de nós mesmos e do outro pode nos ajudar a seguir em um caminho que faça mais sentido para todos

Lucas Tauil de Freitas

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ano passado, nesta mesma época, celebrávamos: 2015 chegava ao fim. Com a esperança do cansaço vinha o novo ano. A esperança não durou muito, o medo foi maior. O temor da escassez tomou as ruas, mas, acima de tudo, os donos do privilégio. O topo da cadeia alimentar se organizou, com medo e em escala mundial em 2016. Os que têm preparam-se para um amanhã, onde não há para todos. Uma narrativa que se autoalimenta, uma profecia que serve apenas a si mesma. A velha Grã-Bretanha decidiu separar-se da União Europeia, os velhos Estados Unidos elegeram Trump e, no Brasil, as panelas silenciaram por um golpe parlamentar. Um movimento orquestrado que tira de quem não tem para dar a quem tem medo do vir a não ter. Robin Hood às avessas. O privilégio ergue muros e incita o ódio às minorias. A estratégia é levantar um nevoeiro onde quem está fora dos muros não tem como se organizar e é engolido pelo medo paralisante, que deixa tudo como está. Quem tem segue a ter e quem não tem que se lixe. Algo em mim sorri frente à visão estreita e infantil deste último estrebuchar dos donos do mundo: são 62, segundo os levantamentos da Oxfam, um quarto cheio, em sua maioria de homens brancos, anglo-saxões e machos, com umas poucas exceções. O futuro improvável que alimento e que te convido a cevar comigo é um  de abundância, onde há o suficiente para todos, um mundo onde a regra é colaborar e compartilhar. Onde a vida é honrada sem condições. O desafio já não é técnico, mas moral. Temos todas as condições práticas de honrar cada ser vivo deste planeta. Há tecnologias estabelecidas e emergentes que permitem nos organizarmos assim, de forma sem precedentes. Nunca houve tanto acesso à informação e tanto ruído. A quem ouvir? Em quem confiar? Acho que primeiro em nós mesmos. Ouvir ao que diz nosso ser mais íntimo, quando em silêncio e sem medo. O passo seguinte é ouvir nossos pares. Me refiro a uma escuta profunda, sem buscar resposta ou justificativa, mas realmente acolher o que diz o outro, uma prática de respeito mútuo. Recomendo a comunicação não violenta de Marshall Rosenberg. Ao ouvir o outro e acolher falas e sentimentos, somos capazes de entender nossos interlocutores e traçar caminhos comuns. A prática começa em cada um, mas precisa transbordar para a família e a comunidade. Podemos nos organizar em círculos de confiança e criar um fractal de valores que protege a todos: pontes que unem o que muros não podem separar. A abundância é o único remédio para a escassez. Vamos inundar de amor as valas de medo e cantar uma harmonia que englobe cada dissonância. Se nos prendem vivos, escapamos mortos.

LUCAS TAUIL DE FREITAS cresceu ao som de MPB-4 em uma terra sob o jugo da ditadura

16/01/2017 - 12:24

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Revista Vida Simples