Sentar em silêncio, sentar em roda

Temos um encontro marcado logo ali no cruzamento entre a revolução interna e a externa

Gustavo Gitti

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
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Trago boas notícias! Por um lado, mestres das grandes tradições contemplativas estão sendo cada vez mais indagados sobre Brexit, Trump, crise política, colapso ambiental... Apenas um exemplo: o título de uma palestra recente da professora americana Elizabeth Mattis Namgyel era Ativismo sem Agitação. Por outro lado, mais ativistas sociais estão se interessando pelo treinamento da mente. Micah White (um dos criadores do Occupy Wall Street, autor do livro The End of Protest, sem tradução para o português) e Angela Davis (filósofa ligada aos movimentos contra o racismo, o machismo e o sistema penitenciário) disseram que estão se dando conta da importância do equilíbrio emocional para a mudança social. Uma amiga ativista me contou que vários de seus parceiros estão sofrendo e tomando psicofármacos; quando ela se viu no mesmo caminho, começou a estudar e praticar o budismo. Estamos sofrendo das mesmas bolhas que arrastam nossa mente e estreitam nossa vida. Precisamos não apenas sentar em roda para entender que bolhas são essas mas sentar em silêncio para retomar a liberdade da nossa mente frente a tais operações. É um duplo sentar. Para sentar melhor em roda, sentamos em silêncio: caso contrário, com uma mente agitada, vamos reproduzir os problemas ao tentar solucioná-los. Para sentar mais em silêncio, sentamos em ro
da: ouvimos mil perspectivas até ficar nítido o limite dos remendos externos e isolados. Podemos organizar encontros entre as pessoas que mais servem comunidades e movimentos diversos. Cabe a nós propor soluções práticas para andarmos a partir daqui. Não basta criticar – como diz a escritora canadense Naomi Klein logo no título de seu novo livro, No Is Not Enough (“Não” Não É Suficiente). Caso contrário, vamos deixar nosso futuro nas mãos de corporações, algoritmos, contratos e transações financeiras, não apenas na mão de políticos e legisladores corruptos. É a compaixão que nos leva a sentar em silêncio para ultrapassar os enganos cognitivos e as contrações emocionais que originam conflitos em múltiplos níveis. Nesse silêncio, ficamos mais íntimos de uma mente estável, clara, generosa, um tesouro de qualidades úteis em qualquer situação. É a mesma compaixão que nos leva a sentar em roda para mapear e priorizar o que deve ser feito. Quando sonhamos com um outro mundo, já estamos nele – não porque ignoramos os problemas ou nos fechamos em um clube de bem-sucedidos, mas porque agora podemos concentrar nossa atenção, escolher juntos o que fazer. Como é que construímos esse mundo com shoppings, salas de aula, leis, avenidas, muros, presídios? Tudo começa no olho. Tudo começa na mente capaz de sonhar.

GUSTAVO GITTI é coordenador de uma comunidade online de transformação. Seu site é gustavogitti.com.

10/08/2017 - 11:12

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