Sinônimos e antônimos

A palavra é de uma riqueza enorme porque possui muitos significados. Tudo depende do modo, do lugar e da maneira como a usamos. E isso é incrível

eugenio mussak

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“não há sinônimos em francês. Aliás, em língua alguma.” Foi o que me disse meu amigo suíço Didier Marlier, quando falávamos sobre a melhor palavra para definir algo considerado perfeito, sem usar a palavra “perfeição”, uma vez que perfeição, na verdade, só existe no mundo das ideias. Tentamos o excelente, o maravilhoso, o sensacional, mas nenhuma atingia o objetivo. São parecidas, mas diferentes. Acho que o Didier, mais uma vez, teve razão. Sua observação foi, digamos, perfeita. Por falar em palavras e em franceses, o escritor Gustave Flaubert era obcecado por usar a palavra certa para definir um sentimento ou uma situação. Consta que depois de escrever um texto, ele o relia à exaustão e, caminhando pelo jardim, pronunciava em voz alta algumas palavras até se certificar que eram as mais adequadas. “Le mot juste!”– dizia – “A palavra certa”. Só existe uma para cada mensagem, era sua convicção. Não é à toa que Flaubert é considerado o gênio do estilo, o mago das palavras, a elegância personificada em texto. Ao interpretar a tristeza de sua Emma, por exemplo, escreveu: “Ela não era feliz e jamais o fora. Por que era tão frustrante a vida que levava, por que tudo em que se apoiava decompunha-se e ruía?”. Ah, Flaubert... como não se enternecer com Emma Bovary, personagem do clássico Madame Bovary? Ele também não acreditava em sinônimos. Pode haver palavras que expressem o mesmo sentido, querem dizer a mesma coisa, mas, na  hora da aplicação, no momento de construir a frase, considerando a situação, a carga emocional, a ênfase que se quer dar, só há uma palavra adequada e pronto. Cabe-nos encontrá-la para dar precisão e poesia ao escrito, ou ao dito. Apesar disso, existe a sinonímica, o capítulo da linguística que se dedica a estudar os sinônimos, suas semelhanças, peculiaridades e aplicações. É quem nos explica que comprido e longo são sinônimos, mas que uma calça é comprida enquanto um vestido é longo. E que pedra e rocha são sinônimos também, mas que a dinamite explode uma rocha da montanha, enquanto o garoto atira uma pedra no lago. Pois é. As palavras são parecidas, mas não semelhantes. Ou seria o contrário? Usá-las adequadamente pode parecer simples, mas não é. A conversa com o filósofo dos Alpes, Didier Marlier, me fez pensar sobre quantas palavras tenho dificuldade em usar. Vamos a alguns exemplos de palavras frequentes, com seus erráticos sinônimos ou antônimos. Humildade e pobreza. A humildade é uma qualidade desejada e apreciada, com frequência atribuída a pessoas que admiramos, citada em várias passagens da Bíblia, e exaltada como marca de caráter e de sabedoria. Humildade, com frequência, é usada como sinônimo de pobreza – só que não é. É melhor interpretar o significado de humildade por seu antônimo. Sim, o seu oposto é a arrogância. O humilde não é o pobre. É o sem soberba. 

Medo e coragem. Com frequência ouvimos que o corajoso é aquele que não tem medo. Coragem significa avançar apesar do medo, e não na ausência dele. Aliás, quem não tem medo não precisa ter coragem. O corajoso avalia os perigos, os riscos, se prepara para enfrentá-los, e então avança. Seu oposto é a covardia. Persistência e teimosia. Sem dúvida, persistir é uma qualidade. Não desistir, manter-se firme, apesar das dificuldades, dos percalços próprios dos trabalhos que dependem de algum tempo para apresentar resultado. É bom ser persistente. Entretanto, persistência é diferente de teimosia. O teimoso também persiste, mas o faz quando não deveria. O teimoso e o persistente não desistem, mas, enquanto o persistente aprende com o erro, o teimoso o repete. Desejo e vontade. Podem até ter a mesma conotação, mas são diferentes na essência. O desejo é um forte instinto ligado à busca do prazer. O desejo é irracional, inato, inconsciente, liberado pela parte mais primitiva de nosso cérebro. Já a vontade é racional, está sob nosso controle. Poderíamos dizer, com auxílio da psicobiologia, que a vontade é um desejo mediado pelo pensamento. Pela manhã, por exemplo, meu desejo é permanecer no conforto de minha cama. Mesmo assim eu levanto e me preparo para o dia e seus desafios, pois estou cheio de vontades. Pressa e velocidade. No mundo moderno, com frequência temos pressa, estamos atrasados, sentimos o tempo faltar como o ar. Então optamos pela velocidade, aceleramos o carro, realizamos tarefas simultâneas, comemos em pé, corremos pela vida. E, então, erramos... e temos que repetir o que fizemos. Sim, a veloci dade prejudica a pressa e vice-versa. É melhor ser veloz no que se faz, mas fazê-lo sem pressa. Aquele que é veloz domina a arte do que faz. O que tem pressa está atrasado, porque não tem domínio sobre seu destino. Amor e ódio. Dois sentimentos poderosos e humanos. Muitas vezes referidos como duas faces da mesma moeda, ou como territórios separados por uma linha tênue, na verdade são sentimentos independentes. E ambos têm o mesmo antônimo, que é a indiferença – a ausência de emoção. Por isso costuma-se dizer de alguém, que é possível amá-lo ou odiá-lo, mas que, sobre ele, não se pode ser indiferente. Nosso idioma é pródigo de traquinagens como essas, que dificultam a vida de uns e fazem a alegria dos amantes da língua. Voltando a Flaubert, que amava a palavra certa, muitas vezes ele encontrava várias, que se somavam na construção perfeita de uma imagem de sua mente fértil. Ao tentar dar um alento à angustiada Emma, ponderou: “Suponhamos, porém, que, em algum lugar, existisse alguém forte e belo, um homem de coragem, ardoroso e refinado, coração de poeta em forma de anjo, uma lira de bronze tocando epitalâmios aos céus – por que não haveria, um dia, de deparar-se com ele?”. Como não acreditar nas possibilidades da vida quando temos a sorte de cruzar com um pensamento estruturado e belo de Flaubert? Mesmo que ele seja representado por um colega do trabalho, um amigo querido, um poema novo, um texto da revista que, no momento certo, nos entrega a palavra certa, aquela que não tem nem sinônimo, nem antônimo, apenas é a palavra que você precisava ouvir naquele momento.

EUGENIO MUSSAK  procura as palavras certas para escrever por aqui todos os meses. Às vezes encontra

23/11/2016 - 14:29

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