Só vou respirar em novembro

É necessário que a gente observe como a nossa regulação emocional fica na dependência das pessoas e das condições externas

Gustavo Gitti

Só vou respirar em novembro | <i>Crédito: Divulgação/Vida Simples Digital
Só vou respirar em novembro | Crédito: Divulgação/Vida Simples Digital

uma vez ouvi:  “Só vou respirar em novembro, ao entregar minha dissertação de mestrado!”. Estávamos em fevereiro! Quando nosso movimento é condicionado, tentamos controlar os outros e as situações externas para estabilizar o nosso mundo interno. Observe uma pessoa fixada no celular: em poucos minutos, ela sorri, contrai a testa, fecha a mandíbula, se anima, se desanima, corta a respiração… Se você ignorar o conteúdo da tela e focar apenas no rosto, verá claramente que ela está sob o feitiço das aparências: uma simples mensagem ganhou o poder de mexer em seus pulmões. Quando sentamos em silêncio, uma das práticas é desfixar a energia das aparências e perceber como a estabilidade surge de modo natural. Experimente agora respirar bem devagar e profundamente, ampliando o brilho dos olhos, como se acordasse um pouco mais. Talvez você perceba uma resistência: “Agora não é hora de ser feliz, nada aconteceu, não tem motivo, ainda não terminei minha tese, ainda não acabou a reforma, ainda estou resolvendo uma questão na terapia, isso aqui é só um texto...”. Como diz o escritor Robert Thurman, a alegria é ilegal. Se as pessoas descobrirem que nosso ânimo pode ser autônomo, esse é o fim do romantismo que mata tantas vidas, é o fim do consumismo, é o fim da publicidade. Relaxe e continue respirando fundo, até sentir que a energia surge mesmo que nada esteja acontecendo: você não está lembrando de nada, não surgiu uma boa ideia, não está vendo, ouvindo, cheirando, saboreando, tocando nada especial. E o brilho interno apareceu, é um milagre! Se nós já gostamos das migalhas de felicidade que obtemos de modo indireto e causal, manobrando pessoas, estímulos e situações, imagine o que seria um contentamento direto, natural, sem causas, sempre presente, não individual, inseparável de todas as vidas, sem o esforço de gerenciar o mundo externo. Outro experimento: pegue algo que ativa bem-estar em você, como a foto de alguém querido, olhe por um tempo e tire da sua frente. Agora tente manter o brilho nos olhos e a abertura do peito sem precisar da foto. Vamos precisar fazer algo parecido com outras dependências. Após o orgasmo, enquanto você relaxa, olhe para o lado e perceba: o outro é um ser confuso, um corpo meio estranho, incapaz de causar tudo isso em você. É você que está relaxando, é você que está se abrindo! Essas qualidades naturais da mente são inseparáveis da vida inteira, não vêm de uma ou outra experiência. Elas estão disponíveis em qualquer lugar, a qualquer momento. Onde tem uma mente, essas qualidades podem ser acessadas. Que a gente possa sentar e praticar energia autônoma bem antes de novembro! 

Gustavo Gitti é aluno do lama Padma Samten e pratica no CEBB São Paulo: cebb.org.br

19/01/2018 - 11:50

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Revista Vida Simples