Sobre criar expectativas

Nem tudo acontece como, de fato, desejamos. Mas a frustração também é um sentimento de quem sonha, cai e levanta, colecionando aventuras na vida

Gustavo Gitti

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
- | Crédito: Vida Simples Digital
quando eu era estudante, certa vez ouvi: “você precisa aprender que as coisas não são como queremos que sejam. Elas são como são.” Quem me disse isso foi uma professora da faculdade. E não de filosofia. De farmacologia. A bronca ressoa em minha memória até hoje. Eu era um estudante secundarista de medicina e tinha pretensões de vir a ser um pesquisador. Com esse sonho consegui estagiar em vários laboratórios da faculdade, especialmente os de fisiologia, histologia e bioquímica. E foi muito bom. Aprendi muito. Talvez menos sobre ciência e mais sobre disciplina, paciência, cuidado e, principalmente, sobre gestão de expectativas. Aquela pesquisa era sobre o presumido poder bactericida dos alcaloides presentes na Ilex paraguariensis, a conhecida erva-mate, muito usada no Sul do Brasil. A teoria (ou seja, a ideia concebida a priori), era de que os microrganismos não suportariam a alteração metabólica promovida pelo meio de cultura modificado. Em outras palavras, ao tomar chá ou chimarrão, você estaria matando possíveis bactérias. Só que não foi o que aconteceu. As bactérias gostaram do chá. Cresceram e se multiplicaram mais rápido. Eu até as imaginava sorrindo de satisfação. Foi quando manifestei minha decepção para a professora Azizi. E então tive que ouvir dela que uma pesquisa científica existe para verificar o que acontece em determinada situação, e não para comprovar o que já se achava que ia acontecer. A pesquisa verifica, não certifica. Permite a  compreensão dos fenômenos naturais, que têm suas leis próprias, e estão se lixando para nossas opiniões ou desejos. “Se você quer ser cientista um dia, pare de apenas tentar provar suas teorias”, concluiu a mestra. Nunca me esqueci daquela experiência. Aprendi, no laboratório, o significado real e o sabor amargo da frustração de expectativa. E muito me lembro daquele acontecimento a cada vez que espero muito por algo, e o que acaba acontecendo é o oposto. O destino às vezes assume a forma daquela placa de vidro com um círculo avermelhado com pontos brancos que eu levei ao microscópio, para ver as bactérias acenando safadas para meu olho inexperiente. Guardadas as proporções, sinto que às vezes revivo aquele sentimento. Recentemente passei por isso. Acordei cedo em uma segunda-feira cheia de compromissos e, claro, de expectativas. Pelo menos quatro coisas boas deveriam acontecer naquele dia, duas ligadas ao trabalho, um compromisso social e a chegada do último tablet comprado pelo site do fabricante (só quem gosta de gadgets vai me entender). Pois bem, a tal encomenda não chegou, as duas reuniões foram totalmente inconclusivas e a festa a que fui no final do dia foi chata e quase desagradável. Pode? Deu tudo errado naquele dia. Já aconteceu com você tamanha catástrofe? Você deve saber do que estou falando. E mais uma vez me lembrei da professora dizendo que, por mais inteligentes, lúcidos e preparados que sejamos, haverá dias em que as coisas não serão como desejamos. Serão como são. E pronto. Longe de mim transformar essa história em um tributo ao conformismo. Não faço o tipo que se conforma, ou que tributa o insucesso ao destino. Não mesmo. Sou mais do tipo que retira energia das dificuldades, e que acredita que o insucesso é uma grande oportunidade de aprendizado. Sem qualquer romantismo. E me ponho a pensar sobre qual é a fonte principal da expectativa. Será apenas o desejo? Acredito que, na maioria das vezes, é, sim. Quando desejamos fortemente alguma coisa, criamos uma ansiedade alta com relação à sua realização. Isso é absolutamente natural, entretanto é bom lembrar que o sentimento de expectativa só existe na ausência da realidade. Em outras palavras, criamos uma ilusão sobre algo que ainda não existe e que desejamos (ou esperamos) que venha a existir. E é aí que mora o perigo, pois o desejo pode ser maior do que a viabilidade do fato. O educador Paulo Freire usava a bela expressão “o inédito viável” para se referir a sonhos que devemos ter, grandes, mas com forte conexão com a realidade. De pouco adianta sonhar o inviável, o impossível. A expectativa sempre será uma suposição incerta, com alto grau de possibilidade frustradora. O que fazer, então? Devemos, ou não, acalentar expectativas? O perigo de tê-las é a desilusão. O perigo de não as ter, é o conformismo. Pessoalmente, prefiro conviver com a desilusão, pois ela é passageira. Dura até o momento em que a próxima expectativa é criada. Desilusão, frustração, tristeza, desesperança, todos esses são sentimentos próprios da existência das  pessoas que sonham, tentam, realizam ou não, ganham e perdem, caem e levantam, e seguem pela vida, colecionando aventuras. Esses são sentimentos com os quais podemos lidar, desde que tenhamos estrutura interior. O aprendizado, com relação à expectativa, é que ela deve ser gerada pelo desejo, mas gestada pela realidade. “O que pode dar errado?” – essa é uma pergunta, que em geral não fazemos, quando o desejo é maior que a consciência, a qual deixamos de lado, afastada com desprezo, por ser considerada desmancha-prazeres. Mas ela não é isso. Ao contrário, a consciência é uma aliada do sucesso, quando cria as condições ideais para a realização do desejado, para a concretização da expectativa. Avaliar o que pode dar errado cria um caminho mais seguro, pois passamos a dispor de ferramentas para corrigir os defeitos do trajeto. “Precisamos planejar bem para poder improvisar melhor”, disse Winston Churchill. E disso ele entendia. Sobre aquela pesquisa de laboratório, que não foi como eu esperava, mas que foi como deveria ser, acabou me dando insumos para outra, ainda melhor. O óbvio incremento do metabolismo das bactérias originou outro protocolo, de verificação do efeito sobre mamíferos, inclusive o ser humano, aumentando a resistência às infecções. Acabei chegando aonde queria, por um caminho que não imaginava. O resultado foi um trabalho publicado, apreciado e até premiado. Não era essa a expectativa, mas, garanto, foi muito melhor que a original. Assim é a vida. Só não tem expectativas quem não tem sonhos e desejos. E só não aproveita a frustração quem não entende a dinâmica própria das coisas. ƒ

 EUGENIO MUSSAK diz que às vezes se frustra por não conseguir “aquele texto”, mas continua tentando.

17/01/2017 - 12:35

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