Socorro, o lobo!

Ter medo da finitude é normal, e falar sobre isso é a melhor maneira de viver o dia a dia com mais intensidade e menos peso

Diana Corso

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
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Dores, tonturas, mal-estares de todo tipo nunca eram uma simples virose ou fadiga muscular. Todos os sintomas encontravam, em meu cérebro dramático, diagnósticos mais graves e devastadores: câncer, doenças degenerativas e acidentes vasculares cerebrais. Depois de boas temporadas no divã, já consigo tratar essas enfermidades imaginárias com alguma dose de humor. Só que agora acabei ficando com medo de nunca levar a sério meus eventuais padecimentos, e vá lá que desta vez... É assim que se produz esse tipo de círculo vicioso, típico dos neuróticos que costumamos ser: penso estar com algo grave, mas sei que provavelmente é bobagem, então não devo levar em conta esses temores obsessivos, mas e se agora for mesmo algo sério? Passo seguinte, tenho certeza de ter algo “de verdade”, mas, como costumo estar doente “de mentira”, acabarei morrendo por culpa dos falsos alarmes anteriores. Como naqueles jogos de tabuleiro, voltamos sempre à primeira casa. Sabe aquela história do menino travesso que fez piada com o perigo? Talvez alguém tenha contado a você, quando era pequeno, a fábula do pastor de ovelhas que gritava “Socorro, o lobo!” só para afastar a solidão. Ela serve para ensinar as crianças de que é preciso avaliar bem quando é hora de alarmar seus adultos, sob risco de perder a credibilidade. Quando a ajuda che gava para salvá-lo do perigo, ele os recebia às gargalhadas. Após várias vezes repetindo a brincadeira de mau gosto, as pessoas da aldeia onde o pastor vivia deixaram de atender seus apelos. Até o dia em que um lobo de verdade chegou e de nada adiantou gritar. Na versão que me contaram, como ninguém apareceu, foi devorado. Não é preciso ser muito esperto para saber que esse lobo é a morte. Ela ronda, como o vilão peludo da floresta, e todo cuidado é pouco. Talvez esse personagem não estivesse brincando: tinha um método para afugentar o medo, providenciando sempre uma escolta preventiva, pois sentia-se seguro somente na presença dos socorristas. Quem vai parar toda hora em consultórios e hospitais e passa fazendo radiografias, ressonâncias e tomografias funciona como ele. Somente nos instantes seguintes aos bons resultados dessas investigações sente-se vivo, mas logo em seguida começa a supor algo ruim que passou batido ou que surgiu logo depois. Na verdade, não há remédio contra a certeza da morte, conformar-se é a única paz possível. Como nosso fim é certo e sua chegada, uma grande loteria, o medo é justo e todo pedido de ajuda merece uma acolhida. Em geral, será bem mais eficaz com algumas palavras certeiras do que com muitos exames. Se bem o caminho é deserto e o lobo mau passeia ali por perto, se tivermos sorte, a estrada é longa! ƒ

 DIANA CORSO é autora do livro Tomo Conta do Mundo – Conficções de uma Psicanalista.

19/06/2017 - 11:30

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