Sorriso interno

Assim como a compaixão muitas vezes se expressa em sorrisos externos, as visões de sabedoria abrem um sorriso interno

Gustavo Gitti

Assim como a compaixão muitas vezes se expressa em sorrisos externos, as visões de sabedoria abrem um sorriso interno | <i>Crédito: Shutterstock
Assim como a compaixão muitas vezes se expressa em sorrisos externos, as visões de sabedoria abrem um sorriso interno | Crédito: Shutterstock

Quando estamos bem perdidos, sem conseguir retornar a uma atitude mais relaxada e amorosa, uma boa saída é sorrir por dentro: apenas perceber como estamos desequilibrados. Isso é sempre possível!
Um pensamento nos arrasta toda vez que não é visto como um pensamento insubstancial. Sorrir para ele significa não se fixar, não se identificar, não embarcar, não lutar contra, não reprimir, não maquiar, não se culpar… Sorrir é apreciar o potencial criativo que gerou tal pensamento. Não precisamos tirá-lo da frente, basta reconhecê-lo para que ele perca o poder.
A gente é tão sério que desconfia: “Não pode ser simples assim! Isso não muda nada… O que adianta apenas sorrir por dentro?”. Ironicamente, e isso precisa ser testado por você, qualquer transformação genuína sempre começa com um sorriso de observação, sem conclusões. Sem sorriso, ao tentar resolver, acabamos piorando tudo. Se você tem orgulho, sorrir não significa escondê-lo. Significa observar diretamente e dizer “Oi, orgulho, eu vejo você”. Ele é só isso: orgulho. Não é seu, não resume sua vida, não precisa comandar sua ação. 
Você também pode observar como cada impulso configura um mundo ao navegar pela internet ou em uma banca de revistas. Você vê uma foto de uma praia, brota o impulso de ir e quando você menos percebe você está lá. É assim que nos perdemos. Por isso é tão importante ter clareza disso ao conhecer pessoas. Quando menos percebe você está cumprimentando o pai, o primo, a amiga, a tia-vó daquela pessoa... Você nasceu dentro de um mundo apenas por seguir alguns impulsos. Não é engraçado?
Escrevemos em caixa alta “EU TENHO CIÚME E NÃO AGUENTO MAIS” onde existe apenas uma experiência volátil, aberta, sem caixa alta, sem nem mesmo algo específico que a gente poderia envelopar e mostrar para alguém no meio da rua: aqui está meu ciúme, pega. Se você sorrir para toda a operação da bolha do ciúme, você estará um pouco mais livre do ciúme. Você pode sorrir para qualquer emoção como uma bailarina que está em uma posição rígida, mas sabe que não está presa ali, que não virou aquilo, que segue livre.
Não se preocupe em sorrir, só olhe sua seriedade: não tem nada mais engraçado. Um bom experimento é reler antigas mensagens românticos que enviamos e recebemos. Observe como surgem as palavras “mesmo”, “realmente”, “certeza”, “nunca”, “sempre”, “tudo”, “nada”. 
Normalmente ficamos com a mente exteriorizada, buscando entender “O que está acontecendo?”. Uma chave para a prática de lucidez (que ouvi de Lama Padma Samten) é se perguntar: “O que estou fazendo com a minha mente?”. Talvez fique óbvio: estou colocando seriedade.

Gustavo Gitti é professor de TaKeTiNa (transformação pelo ritmo). Seu site é gustavogitti.com

17/04/2018 - 14:08

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Revista Vida Simples