Tempos de virada

Reavaliar velhos hábitos e crenças, de vez em quando, é uma atitude corajosa e recompensadora

Diana Corso

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
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ELE TINHA 27 anos quando chegou ao meu consultório, decretando ser essa a idade de tornar-se adulto. Explicou que eram quase 30, mas ainda havia tempo de tomar algumas decisões antes do momento que considerava “fatal”. Também avisou-me que uma pessoa pode chegar a ter “umas sete grandes viradas” ao longo da vida. Chamava assim os momentos em que se precisa repensar tudo, colocar em questão as próprias bases. Na época, ele fez jus à sua ideia das viradas. Saiu de um casamento precoce e infeliz, encontrou a companheira de seus sonhos e especializou-se em algo que tinha tudo a ver com ele, não por acaso, a simulação. Esse é um ramo em que, por exemplo, tenta-se prever os efeitos de uma alteração sobre a linha de produção de uma fábrica. Portanto, modificar para melhorar é sua paixão. Esses dias, com menos cabelo e quase duas décadas a mais, reapareceu para reavaliar novamente sua vida. Brincamos entre nós que ainda lhe faltavam umas três viradas. O aumento da expectativa de vida trouxe um impasse interessante: as decisões que implicam mudanças de destino na vida de pessoas já maduras. Quando um adulto contemporâneo chega próximo à idade na qual seus antepassados estavam encaminhando-se para o fim, ainda pode dar-se ao luxo de pensar a que irá dedicar-se. É possível que viva ainda algumas décadas, o que fazer com elas? A possibilidade de passar esse tempo em frente à TV não é atraente. Como nem só de trabalho somos feitos, os pactos amorosos também são questionados, revisados ou revogados. Para alguns é inclusive época de viver amores nunca tentados. O velho fim é um novo começo. As tais viradas, as sete que meu jovem paciente apaixonado por números havia anunciado, podem ser pensadas em termos de decisões de grande impacto, mas também em um sentido mais sutil. Por vezes significam meras mudanças de ritmo, de ponto de vista. Para os mais ousados, é tempo de abrir os olhos para o que acreditávamos que fosse impossível desejar. A novidade é que temos mais ocasiões e mais prazo para tentar, o que não é o mesmo que simular. Na indústria pode-se prever os efeitos de cada inovação. Já na vida é preciso ousar sem o expediente tranquilizante de simular resultados. Reavaliar-se demanda uma escuta fina e destravada de si mesmo, só assim para descobrir o que estamos querendo de forma enviesada. Somos estranhos ao que expulsamos da nossa consciência, por isso mudar dá tanto medo. Os antigos viviam menos, trabalhavam na mesma firma, no mesmo ramo e casavam para sempre. A experiência de uma vida em uma única existência é uma conquista, mas aproveitar essa longevidade é uma aventura. 

DIANA CORSO é autora do livro Tomo Conta do Mundo – Conficções de uma Psicanalista.

25/09/2017 - 12:23

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