Tensão musical

Assim como em uma orquestra, é preciso sensibilidade e compaixão para convivermos em harmonia

Lucas Tauil de Freitas

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UMA AMIGA soltou uma pergunta que me pegou pelo calcanhar: “Quando você percebeu que tinha virado adulto?”. As respostas que tomaram a roda eram divertidas e inspiradoras: “Quando tive de comprar azeite com o meu dinheiro”, disse uma. “Quando tive de ir ao médico sozinho”, uma outra. “Quando tive de conversar com o médico do meu pai sobre seu diagnóstico terminal.” No meu caso, foi quando me dei conta das minhas limitações sem me afundar em culpas. Quando fiquei amigo do menino que há em mim, tratando-o com a delicadeza que merecem as crianças. Sem mimar, mas oferecendo o que precisa. Surgia uma nota nova ali. Há uma tensão ideal para que a corda de um instrumento faça música. Frouxa, ela desafina; apertada demais, arrebenta. Uma orquestra, onde cada instrumento leva diversas cordas ou ajustes, traz a imagem da complexidade dos nossos tempos. O sem fim de variáveis presentes no intrincado e dinâmico equilíbrio em que vivemos faz da tolerância e da compaixão qualidades indispensáveis à harmonia. Há maestros que lideram os movimentos. Gosto mesmo é dos que servem os músicos, que costuram habilidades, ritmos e cadências. Como o pente de um tear, sua batuta une a trama. Minha caçula, Julia, está à beira da adolescência. Enquanto ela ainda escuta, conversamos: “Muitas vezes temos pouca escolha quanto 
ao que vivemos. Muito mais liberdade há em como lidamos com o que a vida nos traz”, eu disse. O cerrar de suas pálpebras me dá a deixa para seguir: “Persistir com disciplina em nossos objetivos dá tensão à corda. A resignação para lidar com o que é inevitável afrouxa”. Seus olhinhos sobem um pouco, pensativos. Um silêncio fértil nos acaricia. Por fim me olha curiosa e continuo: “A mágica da música é distinguir entre o tempo de persistir e o de aceitar”. O movimento de seu corpo e a abertura repentina dos lábios dizem que seu silêncio passou: “Mas, pai, cada pessoa é diferente!”. Eu digo que sim, como também os instrumentos e a habilidade com que cada um de nós toca. Ela logo se distrai, mas sigo a pensar: uma tensão semelhante aparece na forma como interagimos uns com os outros. Há quem seja como um cientista em que a presença e atitude do observador são separados do experimento. Gente que não enxerga nos eventos de que participa a relação com a sua própria atitude. É o  professor que preenche o quadro-negro sem conectar-se com os alunos. Outros preferem uma afinação antiga, menos aguda, gente que foca na conexão entre observador e experimento, um caminho de fazer junto. São professores que aprendem com seus alunos, que entendem que a maior lição acontece quando os pequenos nos observam a aprender e se inspiram.

LUCAS TAUIL DE FREITAS busca a nota que sabe se separar dos acontecimentos e também ser parte deles

27/09/2017 - 12:20

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Revista Vida Simples