Ter ou pertencer

Temos sempre essas duas opções à nossa frente, mas qual delas estamos escolhendo seguir e qual o custo disso?

lucas tauil de freitas

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
- | Crédito: Vida Simples Digital
Sem qualquer esforço, apenas ao olhar de um lado para o outro da minha poltrona do avião, encontro 11 telas, pequenos monitores de TV. Em cada uma delas, uma história: de encontro, desejo, medo ou perda. Uma a uma, as caixas de luz reproduzem imagens de beijos, olhares, fogo e sangue. Em frente a cada uma delas há uma pessoa afivelada à sua poltrona, alguém que vive de acordo com as mesmas narrativas que você e eu. Lá fora, tudo às centenas: viajamos rápido, a quase mil quilômetros por hora. De tão ligeiro, nem se vê a água salgada, 10 mil metros abaixo de nossos pés. Do lado de fora, o frio é congelante (-50 graus), mas dentro da gente também. Uma aeronave que cruza o Oceano Pacífico é a própria imagem deste tempo: o paradoxo latente do saber e da ignorância, o poder de criar e o de destruir combinados. Naquele ambiente fechado, centenas de pessoas permanecem em um prático silêncio. Não há encontros ou conversas. A eficiência reina em atmosfera rarefeita. Aqui dentro, de pertencimento e, lá fora, de ar. Ao lado, à frente e atrás, vai o outro, aquele que vê a imagem que projeto, que escuta e julga a história que teço. O outro está logo ali. Não o vejo, mas apenas seu papel. Longe de mim, ele se torna apenas instrumento, carece de existência própria. No vidro da janela, duas gotas d’água repousam. Mal se encontram e são uma. Paro e olho para o oceano. A imagem abaixo de onde estou é a do encontro, do pertencer: cada molécula de água ligada à seguinte, a parte que é todo sem deixar de ser. O mar a uma dezena de quilômetros. Duas histórias tão distintas, e eu entre elas. A água e seu fluxo evaporam, precipitam e congelam. O líquido que é síntese de pertencimento e colaboração. Me detenho em outra reflexão: nós e nossas máquinas. Outro dia, li que criamos um aparelho minúsculo, inteligente e que voa, capaz de polinizar as plantas. O objetivo é substituir o trabalho feito pelas abelhas. Nos escapa, porém, que, com as abelhas envenenadas, um pedaço de nós também morre. Voar sobre um mundo sem abelhas tem menos graça. Quando o foco vai no que o outro pensa de minha imagem, e em como julga a história que conto, esqueço o que importa no outro: sua mais simples existência. Esqueço também das abelhas. São as histórias que nos unem que permitem os grandes números: de velocidade, altitude, tecnologia e produção. São os mitos que nos organizam, apesar das diferenças, que permitem construirmos juntos as ficções que alinhavam nossa vida. É preciso saber da importância das histórias e escrever narrativas melhores, mitos novos. Histórias fluidas e de pertencimento, e não de número e de acúmulo. A água que não flui apodrece. Para ter demais é preciso envenenar: a água e as abelhas. ƒ

LUCAS TAUIL DE FREITAS quer beber água de nascentes e pertencer a um mundo cheio de abelhas.

21/06/2017 - 17:43

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Revista Vida Simples