Todo mundo está disposto

Uma contemplação para tornar inevitável a atmosfera de cuidado e suavidade em nosso cotidiano

Gustavo Gitti

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
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VOCÊ PROVAVELMENTE já viu filhotes de passarinho abrindo o bico para receber alimento da mãe. Essa cena é tão comovente porque cada um de nós é isso, essa fragilidade exposta, esse sofrimento em busca de alívio. Observe a fila de pessoas com um prato na mão em um restaurante por quilo. Um casal em sétimo lugar na lista de espera olhando as mesas pela janela de um bistrô. Um senhor se ajeitando pela décima segunda vez na cadeira do ambulatório. Aquele olhar em busca do número correto da esteira de bagagem no aeroporto. O marido aguardando a esposa tirar algum dinheiro do caixa eletrônico. A plateia sentadinha após o terceiro sinal do teatro. O pescoço de um bebê. O momento em que abrimos o e-mail. Um adolescente conferindo o gabarito do Enem. A pessoa seguindo as orientações do GPS ou da professora de meditação. Os microssegundos de cada parte do corpo em direção ao abraço. Um pai procurando pelo filho na saída da escola. Uma pessoa perguntando para outra onde é a rua tal. Alguém se arriscando a publicar na internet. Alguém chegando ao banco com uma conta na mão. Dá vontade de pegar no colo. Se você enxergar que todos os seres estão sofrendo e querem ser ajudados (mesmo quando não parecem querer), o mundo inteiro vai se mostrar como uma casa de swing: em algum nível, todo mundo ali está disposto. Estamos sempre à beira dos outros, inclinados, suscetíveis, prontos para dizer “Oi, prazer!” quando somos apresentados. Como achar que alguém é fechado? A pessoa acordou, se levantou, escovou os dentes, saiu de casa, pegou o metrô, chegou no escritório. A pessoa está andando e respirando. Na dúvida, experimente chamar por seu nome. Ela vira a cabeça. É extraordinário! Não tem como alguém evitar essa disposição natural à conexão. Até mesmo a pessoa mais teimosa leva um susto se você gritar. Estamos escancarados — como escreveu o poeta francês Paul Valéry, “o mais profundo é a pele”. Diante de tanta fragilidade, como ser agressivo? Só nos resta ter ainda mais cuidado, suavidade, delicadeza a cada contato. Se você quiser aprofundar a contemplação acima e se tornar ainda mais dócil, além das práticas de amor e compaixão, experimente as práticas de estabilidade (shamatha, “calmo repousar” em sânscrito). Para acontecer algum nível de agressão, é preciso um movimento brusco. Em meio ao silêncio da meditação, ao diminuirmos a reatividade estabanada, reduzimos também a rispidez e a aspereza da mente. Se você olhar mestres como Mingyur Rinpoche, fica claro que eles são como mel. É impossível se cortar com mel. Não há arestas ou farpas. Eles são o exemplo vivo da completa ausência de agressão. 

GUSTAVO GITTI é professor de TaKeTiNa (florescimento humano pelo ritmo). Seu site, gustavogitti.com

26/09/2017 - 13:30

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Revista Vida Simples