Todo mundo quer ser bom

Você realmente acha que sabe distinguir o bem do mal? Ou é tão fácil assim separar uma coisa da outra? Algumas luzes podem nos ajudar a enxergar melhor essa diferença na hora de decidir qual atitude tomar

Liane Alves

A verdadeira bondade dá lugar à palavra e à ação do outro | <i>Crédito: Shutterstock
A verdadeira bondade dá lugar à palavra e à ação do outro | Crédito: Shutterstock

Abraçado com sua vaca Esmeralda, e na companhia de uma boa garrafa de cachaça, Sinhozinho Malta, personagem da novela Roque Santeiro - um clássico da teledramaturgia brasileira -, chorava todas as pitangas a que tinha direito. "Eu não entendo como a cidade toda pode estar contra mim, logo eu, um homem tão bom, tão honesto, um coração de manteiga que se preocupa com todo mundo. Eu não posso compreender, Esmeralda, como minha própria família, sangue do meu sangue, é capaz de me apunhalar pelas costas, ir contra mim, apesar de eu ser tão sincero, tão leal..." E assim ia enumerando suas esplêndidas qualidades, sentindo-se completamente injustiçado, traído e cercado de gente da mais pérfida e ingrata índole. Não é preciso dizer que o fazendeiro, representante do coronelismo mais vil e corruptor, agia na direção inversa do que dizia.

Mas, só cá entre nós, todos somos um pouquinho como Sinhozinho Malta, não é? Temos uma dificuldade enorme de enxergar quando pisamos na bola, de admitir nossas mentiras e vilanias, nossas pequenas e grandes malvadezas. No geral, sempre achamos que os outros estão errados, enganados, que somos vítimas de uma eterna injustiça. Nos achamos cheios de razão e encerramos o assunto. Não conseguimos avaliar uma situação com isenção. Porque dói muito, muito mesmo, não se reconhecer bom, leal e confiável.

O mesmo vale para o bem que pensamos praticar. Também não conseguimos identificar quando ele é algo real, genuíno e autêntico, ou quando ele é outra coisa disfarçada de bondade e compaixão. Mas alguns pensadores e professores já refletiram bastante sobre isso. Eles estão aqui para nos ajudar a dizer com mais facilidade e menos resistência um "ops, foi engano" na hora da mancada ou a nos sentirmos com o coração pleno e feliz quando conseguimos realizar algo verdadeiramente bom.

A banalidade do bem

Todo mundo quer ser do bem. Ninguém deseja voluntariamente ser pérfido ou cruel, com exceção de alguns sádicos assumidos. O mal que causamos acontece geralmente pela falta de consciência do que fazemos e pela nossa ausência de visão com relação às estrondosas consequências que podem ser geradas com base em nossas atitudes. Somos inconscientes do mal que praticamos, e que, aliás, na maioria das vezes é feito em nome do bem, ou do que achamos que ele é. "Está na ordem do dia ser reconhecido como alguém que pratica o bem; em contrapartida, perpetuamos posturas em nosso cotidiano que reproduzem situações de nítida desigualdade ou preconceito", diz Luciane Lucas, professora da Faculdade de Comunicação da UERJ. "Compramos camisetas de campanhas, escolhemos produtos com selos verdes e participamos de eventos cuja renda é destinada a alguma entidade assistencial, mas desconhecemos em que medida tais instituições se comprometem com verdadeiras mudanças estruturais."

Há a boa intenção de nossa parte, mas não um interesse real com o que acontece depois de nossa ajuda. "Nossa atitude demonstra uma superficialidade, um modismo absoluto. Fica evidente um não-comprometimento com mudanças profundas nas estruturas sociais, políticas e econômicas", diz Luciane. É uma espécie de verniz do bem, que não tem muito valor e significado, porque não modifica as causas primeiras geradoras da injustiça. E até pior do que isso: essas ações paliativas mascaram o que realmente precisa ser feito, perpetuando a situação que originou o desequilíbrio. "A banalização do bem gera a banalização do mal", afirma Luciane. Sem querer, com nossas pequenas ações bem intencionadas, mas ineficazes, somos capazes de provocar mais mal que bem.

No livro A Fome no Mundo Explicada a Meu Filho, o ex-relator da FAO (o órgão de alimentação da ONU), Jean Ziegler, relata um exemplo que ilustra com clareza a superficialidade de nossas ações. Ao folhear uma revista francesa, ele viu uma foto cuja legenda celebrava a chegada da ajuda humanitária ao Sudão, país africano onde vivem milhares de pessoas em estado de inanição. "Na imagem, aviões lançavam alimentos a baixas altitudes nas matas. Especialista, Ziegler sabia que jogar produtos alimentícios normais para uma população tão desnutrida era praticamente condená-la à morte. Nos últimos estados de desnutrição, uma pessoa só pode receber alimentação líquida, com vitaminas e sais minerais criteriosamente selecionados. Se ela ingere uma comida comum, pode morrer pouco depois", diz Luciane. Mas esse fato crucial pareceu ser ignorado pela mídia, e certamente o foi, também, por grande parte dos que leram a matéria. Sem falar na irresponsabilidade das instituições ou indivíduos que doaram os alimentos.

O que Luciane propõe é um comprometimento mais sério com nossas ações. Em outras palavras, ela sugere que façamos o bem olhando muito bem para quem. Isso inclui mais responsabilidade e um questionamento rigoroso das informações divulgadas por instituições, empresas e organizações candidatas a receber nosso "bem". É preciso pesquisar, saber direitinho como é a cadeia de produção e consumo de certas mercadorias, o valor real de certas campanhas com relação a mudanças estruturais, a idoneidade das organizações, sejam elas empresariais, sejam governamentais ou não-governamentais. O que ela sugere é termos mais responsabilidade com relação a nossas escolhas de como fazer o bem. Até para não fazer besteira.

Vai me ajudar, moço?

Além disso, a verdadeira bondade dá lugar à palavra e à ação do outro. Isto é, tenho de perguntar o que o outro quer, o que ele deseja, antes de querer impor a ele meus modelos e referências. Ele pode - e inclusive tem o total direito - não querer nada do que eu quero fazer. Não posso engessá-lo na condição de ele ter de engolir o que quero dar e da forma que desejo.

Para chegar a essas conclusões, Luciane Lucas estudou o pensamento de Hannah Arendt, uma das maiores pensadoras políticas do século 20. Foi Hannah quem cunhou a expressão "banalidade do mal", e também foi ela quem refletiu sobre o papel da cidadania. "Preciso respeitar os valores, os saberes e o modo de viver do outro. Praticar o bem é, antes de mais nada, não contribuir para cristalizar posições opostas como a de quem dá e a de quem recebe", diz Luciane. Essa atitude pressupõe, por exemplo, respeitar o direito do outro de dizer não, bem como considerar e dar validade às soluções que apresenta. Assim, ele sai do papel passivo de mero receptor do bem, ganhando dignidade e voz ativa. "Se não faço isso, essa suposta bondade oculta uma forma de dominação, um exercício velado de poder", afirma Luciane. "O discurso de estímulo à caridade não raro ‘congela’ quem recebe numa incômoda posição de permanente devedor. Estabelece-se um jogo de poder, onde quem dá tem o direito de ditar as regras do jogo, arbitrariamente."

Ela cita um exemplo ocorrido no semiárido nordestino. "A ideia de implantação de cisternas resulta de uma solução local. Já a tentativa de empreiteiras de se envolverem no projeto Um Milhão de Cisternas evidencia o desejo de apropriação de uma solução que em nenhum momento precisou delas. Felizmente essa ingerência não vingou." O mesmo conceito se aplica às terras indígenas. "É preciso respeitar a decisão de seus donos. Se nosso sistema econômico se baseia na produtividade, na competitividade, no capitalismo, os indígenas têm o total direito de escolher outro sistema para eles, que se fundamente em outros valores", diz Luciane. Podem querer viver de coleta seletiva e não dos royalties advindos de uma ferrovia que corta suas terras. A decisão é deles.

Delicado, não? Sinceramente, nunca tinha pensado dessa forma. Mas são questões importantes que merecem reflexão, antes de agirmos de maneira impulsiva e imprudente.

Escondendo o jogo

Quem é realmente capaz de praticar o bem? Será que a bondade exterior, essa caridade que faz julgar a mim mesmo como bom e generoso, não esconde outras intenções e motivos?

Com você deve supor, é claro que sim. O desejo obsessivo de praticar o bem pode ser sinal de carências profundas, vindas de outras fontes internas. Tanto isso é verdade que os instrutores do Centro de Voluntariado de São Paulo, durante a formação dos seus candidatos, insistem no perigo de o voluntário querer substituir sua vida pessoal pela ação filantrópica. Há sugestão de limites de tempo de dedicação (cerca de duas horas por semana) e mesmo de intensidade afetiva na doação. E, se a pessoa quiser trabalhar com questões sociais durante um período maior de tempo, é dito com todas as letras que o caminho certo para isso será se capacitar profissionalmente. Como voluntário, é melhor que existam certos parâmetros de atuação.

"A bondade consciente é uma conquista interna, espiritual. Ela só pode ser exercida plenamente quando não encobre desejos de manipulação. O exercício da bondade também não pode ser usado para suprir nossas próprias carências de afeto, ou as carências de afeto de outras pessoas", diz Amnéris Marone, psicoterapeuta, professora na Faculdade de Antropologia da Unicamp e colaboradora da Associação Palas Athena, onde ministra cursos: "Uma pessoa só é capaz de praticar a bondade real depois que conhece a si mesmo e aceita seu lado mais sombrio, sua própria agressividade e destrutividade". Isso quer dizer que quem pratica o bem dessa forma consciente o faz de maneira saudável: não se julga "bom", "santo", "puro", mas um ser que tem aspectos positivos e negativos, que é capaz de ser ciumento ou arrogante numa ocasião, mas também generoso e solidário em outra. Sabendo de nossas qualidades e limites, fica mais difícil cair no que Santo Agostinho chamava de "o maior de todos os pecados": a vaidade dos santos. Faço um clique solidário, compro uma camisetinha e incho de orgulho por mim mesmo e por minha suposta "bondade". Quem já não se sentiu assim?

Para poder reconhecer a existência do bem e do mal dentro de nós, ajuda muito a criação que tivemos na infância. "Uma pessoa que teve os pais,ou um professor influente, capazes de ser tolerantes com o mal, o erro ou um limite, vai estar capacitada a se aceitar melhor em sua totalidade e a não projetar suas emoções negativas nos outros, como se não as tivesse", afirma Amnéris. Porque o mal não reconhecido torna-se insidioso, pois se transforma em algo que está lá fora, no outro, e não dentro. "Digo a meus alunos para convidarem suas emoções negativas para jantar, conhecê-las melhor, saber o que querem, e reconhecer sua existência", diz a professora, com humor. Para Amnéris, a terapia é um ótimo caminho para identificá-las e integrá-las.

Outra condição essencial para praticar a bondade real, segundo ela, é que a pessoa tenha uma capacidade de sobrevivência assegurada - não adianta querer ajudar os outros quando mal nos mantemos em pé. "É preciso uma integridade, uma autonomia." Ela cita o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, que dizia que para praticar a bondade é necessário cuidar de si e ter compaixão. Primeiro, é preciso estarmos íntegros, integrados a nossos aspectos negativos e positivos, nos aceitarmos como somos, para então nos dedicarmos aos outros. "Bondade, solidariedade e compaixão são sinônimos entre si. O que as determina é sentir em si mesmo a dor do outro e querer estar junto dele para minimizar seu sofrimento."

Porém, o que Amnéris vê em seu consultório é que muitas pessoas se dedicam a fazer o bem para substituir situações psicológicas não resolvidas. "Por exemplo, uma filha que tem uma mãe deprimida, encerrada em sua condição de vítima, que se sente injustiçada e que não quer sair disso, isto é, que não deseja uma reparação da sua própria condição, pode se sentir impulsionada a procurar outros objetos (ou pessoas) que precisam de reparação, já que ela não consegue obter isso da própria mãe." Ela provavelmente irá se dedicar com obsessão a uma causa, talvez igualmente insolúvel, porque não consegue resolver seu problema original. A resposta, nesse caso, é procurar se conhecer melhor, reconhecer o ódio reprimido que se manifesta como depressão na mãe, ir se libertando desse objeto psíquico sem solução.

Nascimento da bondade

Existem pessoas mais predispostas a amar, a cuidar, a se doar - a serem boas. "Com certeza trata-se de alguém que se desenvolveu em um meio afetivo e onde houve uma fusão inicial suficientemente boa entre o corpo do bebê e o corpo da mãe (ou de alguém que fez a maternagem)", afirma o psicoterapeuta Levi Leonel e Souza. Segundo ele, essa interação se dá quando a mãe consegue estar de maneira profunda com seu bebê, formando um corpo para dois, uma alma para dois, uma mente para dois, até que a criança possa criar um mundo psicológico só seu para habitar. E é muito importante que a criança possa criar sua nova realidade pessoal com base nesse intenso vínculo de amor. "Segundo o psicanalista inglês Donald Winnicott, o bebê nascente não tem consideração pela mãe e dela exige apenas e tão-somente a nutrição. Pode-se dizer que ele é cruel, egoísta, mas não mau", afirma Levi. Ao chegar ao estágio de concernimento, em que se percebe numa relação com o outro, a criança torna-se capaz de amar porque já provou a sensação amorosa nessa fusão inicial. Sentindo-se já separado da mãe, o bebê pode finalmente reconhecer nela a fonte de todo esse amor e prazer. Quando cresce, ser bom e amoroso torna-se então uma condição natural para ele, pois é plenamente capaz de estender esse sentimento já vivenciado a outras pessoas.

Mas e quando não acontece essa fusão inicial de amor ou quando não houve um ambiente afetivo na infância? Mais uma vez, a resposta pode estar na terapia, com o resgate de outras vivências amorosas experimentadas, por meio da palavra ou do corpo. Levi Leonel faz esse trabalho com sessões existenciais integrativas, por exemplo. A solução também pode estar no trilhar de um caminho espiritual. "O ser humano é o ser que anseia por amar, que foi programado para amar e agir com justiça para com o homem - é isso o que ouvimos desde a Antiguidade, em nosso mundo ocidental e nos grandes ensinamentos do Oriente, e como ensinaram Moisés, Hillel, Jesus, Maomé, os mestres da Índia, Buda, Sócrates e toda a hoste angelical dos espiritualmente sábios", escreveu o professor de filosofia americano Jacob Needleman no livro Por Que Não Conseguimos Ser Bons?

A compreensão sobre a bondade genuína chega quando nos tornamos capazes de amar e não vemos mais o mundo do mesmo jeito. E isso demanda esforço, às vezes durante muito tempo e na direção correta. De uma maneira prática, essa transição até a bondade genuína pode ser resumida nas palavras atribuídas aos anjos e transmitidas a um pequeno grupo de jovens húngaros durante a Segunda Guerra Mundial. "Vocês ainda tentam tudo da maneira antiga: escuro-claro, bom-mau, frio-quente. (...). O mal não existe, existe força não transformada (...). O mal é o bem em formação, o que ainda não está pronto. Não corrija o mal. Aumente o bem. Ele absorverá o mal que existe ao seu redor." E, quanto mais consciente, verdadeiro e responsável esse bem, melhor.

02/05/2017 - 14:48

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