Uma rata libriana

Um mergulho dentro da gente mesmo para entender quais são os bichos que melhor nos representam

Diana Corso

Quais são os bichos que melhor nos representam? | <i>Crédito: Shutterstock
Quais são os bichos que melhor nos representam? | Crédito: Shutterstock

Sou uma rata: amo um duelo verbal, zelo pelo meu grupo. Convém manter-me ocupada em um ambiente desafiador. Caso contrário, por inquietude, me tornarei gananciosa. Assim entendi meu signo no horóscopo chinês. Seria assim por ter nascido em 1960. 
Sou de Libra, dou vários dedos da mão para evitar uma briga, mudo de opinião facilmente, ponderando a força do último argumento na rodada de discussão. O que realmente me importa é que o grupo fique harmônico. O problema é que, graças ao ascendente em Escorpião, tendo à manipulação. Foi assim que entendi, provavelmente de modo grosseiro, meu modo de ser a partir da astrologia. 
Talvez os psicanalistas, mais afeitos à psicopatologia, não tivessem dificuldade em me considerar uma histérica, pela irreverência petulante e sedutora. Já nos testes psiquiátricos de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade me vejo revelada. Enfim, como muitos, me pacifico quando encontro uma explicação científica para meus comportamentos. Mesmo que isso signifique possuir uma síndrome, complexo, ou características pouco elogiosas. 
Sei que estou sendo leviana com vários campos de estudo, mas as referências acima são apenas ilustrativas, resultado da busca por algo que me explique. Inserida numa categoria, boa ou ruim, sinto-me menos solitária e errada. 
Sou pouco afeita a generalizações, talvez por ser libriana, histérica, dispersiva ou psicanalista. Meu ofício sobrevive do sentido oposto dessas premissas classificatórias. Ele se baseia na nossa imparidade: ao nascermos, nos é atribuído um nome e a missão de protagonizar a própria biografia. Sabemos, a partir das pesquisas das ciências humanas — ou mesmo desde a astrologia — que o lugar e a hora em que chegamos ao mundo serão decisivos, assim como a constituição do corpo determinará limites e potencialidades. Lugar, época e natureza constituem o ecossistema, o habitat. São determinantemente fortes, mas sob essa paisagem corre um rio subterrâneo que tudo altera: o inconsciente. Ele vai bagunçar previsibilidades, gostemos ou não. 
Para não afogar-se nessas águas traiçoeiras, vale a pena ter curiosidade por suas correntezas. Meu instrumento de trabalho — a associação livre — consiste em convidar os pacientes a dizer o que lhes vier à cabeça, sem censura. O que surge são pensamentos bizarros, relatos de sonhos malucos, sentimentos despropositados, que trazem notícias dessas profundezas. Com eles vamos detalhando as coordenadas desse mapa único, que nasce e morre com cada um de nós.
A parte da rata eu já entendi, mas o que me torna peculiar são os outros bichos — alguns papões — que carrego por dentro. Sem contar com o zoo que me espera do lado de fora.

Diana Corso é autora do livro Tomo Conta do Mundo — Conficções de uma Psicanalista.

25/06/2018 - 13:21

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