Você não precisa dar conta de tudo

A vida não é como um jogo cujo controle está nas nossas mãos o tempo todo. Confiar que algo pode dar certo independentemente do seu comando traz equilíbrio e leveza

Sibele Oliveira

Jogo do descontrole | <i>Crédito: Dandara Hahn
Jogo do descontrole | Crédito: Dandara Hahn
“Nem quando está tendo um derrame você perde o controle!” O tom de voz do marido era de indignação, mas Regina Deliberai Trevisan achou graça. A jornalista havia chegado em casa tarde. Tivera um dia tão corrido que não sobrou tempo nem para jantar, pois além da rotina agitada de costume, precisou preparar a viagem a trabalho que faria na manhã seguinte. Depois de colocar tudo em ordem, tomou um banho e se deitou para ver televisão. De repente, começou a se sentir estranha, como se sua mente estivesse funcionando em câmera lenta. Esforçou-se para falar, mas a voz não saiu. Pensou que se tratava de uma indisposição passageira, até ouvir o marido dizer que aquele não era um bom sinal. Chegando ao hospital, o médico disse que tal mal-estar provavelmente era um ataque isquêmico transitório. Apesar de estar com a pressão arterial nas alturas e do susto de quase ter um AVC, a jornalista não se preocupou tanto. Achou que o marido estava exagerando. Regina sempre foi o que se espera de uma mulher moderna. Profissional modelo, mãe de família dedicada, amiga devotada. Dava conta de tudo sem grande embaraço. Do trabalho como gerente de comunicação numa grande empresa em Cuiabá, de tudo o que acontecia em sua própria empresa, do marido, dos filhos do primeiro casamento, do filho do segundo casamento, da enteada, dos familiares e dos amigos. E ainda encontrava tempo para supervisionar o relacionamento entre os filhos, entre o marido e os filhos, entre a enteada e a mãe, entre o marido e a ex-mulher.

Tanta coisa que dá para cansar só de pensar. Mas Regina só percebeu que estava cansada quando viu a saúde ameaçada; teve até vontade de se divorciar do terceiro marido, mesmo sem nenhuma crise e antes do sonho de ter mais um filho. “Busquei independência e caí na cilada de ter muitas pessoas e situações dependentes de mim. Queria estar o tempo todo consciente, ter controle sobre todas as coisas. Quando veio a hipertensão, foi o momento de corte. Eu estava num esgotamento completo”, recorda. Conheci Regina por um post no blog dela, em que a jornalista se assumia controladora – uma “controladora do bem”, preocupada mais com a felicidade dos outros do que com a própria. Era como um polvo intermediando todas as relações com tentáculos elásticos. Com tempo para tudo e para todos, menos para ela mesma. Como acontece com muitos de nós, que de tanto ouvirmos e lermos que devemos assumir o controle da vida, seguimos o conselho à risca. Não há nada de errado em querer dirigir a própria existência. O problema está no exagero, em acreditar na ilusão de que se pode dominar tudo. E isso traz muito sofrimento. Primeiro porque nem tudo depende de nós, como sabiamente disse o filósofo grego Epicteto. “Das coisas existentes, algumas são encargos nossos, outras não.” E também porque quando programamos nossa rotina com precisão matemática, aumentamos o risco de frustração quando algo sair diferente. Assim, tiramos da vida a capacidade que ela tem de nos surpreender com caminhos mais interessantes que os escolhidos por nós.

Relaxar é viver
O objetivo desta reportagem é propor uma mudança de hábito. Sair da tentação de manter um controle ferrenho sobre a vida e migrar para  uma postura mais equilibrada, flexível e relaxada, que mantenha a porta sempre aberta para novas possibilidades entrarem. O controlador é perfeccionista e vive em busca do que julga ser a perfeição como quem procura um tesouro atrás do arco-íris, mesmo que jamais possa alcançá-lo. E um exímio vigilante, que não se permite desviar os olhos de seus objetivos, pois tem a sensação de que basta um cochilo para tudo dar errado. “A pessoa controladora acha que é a única que sabe gerenciar tudo. Ela sofre um desgaste contínuo porque está sempre em estado de alerta. À noite, não consegue descansar”, explica Ana Maria Rossi, psicóloga e presidente da International Stress Management Association do Brasil (ISMA-BR).  Antes de pensar no controle como um obstáculo que nos impede de chegar mais longe, é importante lembrar que ele tem a sua serventia. É fundamental nos posicionarmos diante dos muitos acontecimentos que inundam os nossos dias, mas sem uma rigidez que encha nossos horizontes de limites. “Devemos ter controle sobre a nossa vida, sobre as nossas coisas, mas que esse controle não seja exacerbado ao ponto de afetar nossa saúde e nossos relacionamentos”, afirma Ana Maria.  É bastante tênue a linha que separa o controle praticado de maneira saudável daquele que se torna obsessivo. O controlador nunca relaxa. Dorme mal, vive com os músculos tensos, tende a ter a pressão arterial alta, a respiração e os batimentos cardíacos acelerados e passa por uma tempestade emocional quando não se sente no controle. Como se estivesse a bordo de um barco à deriva num alto-mar de ansiedade e angústia, buscando desesperadamente retomar o comando. Na ânsia de encontrar remos para voltar ao norte conhecido, torna-se hostil e pode ter explosões de raiva e agressividade, que fatalmente respingam em quem está por perto. É assim que, sem querer, cava seu próprio isolamento. Por trás do empenho em conduzir a existência com mão de ferro, na maioria das vezes a pessoa controladora nutre um desejo sincero de garantir o bem-estar de si e de quem está por perto. O controlador geralmente quer de verdade o melhor para os outros e pauta suas ações por critérios como responsabilidade e cuidado. Só que erra a medida e invade o espaço alheio, às vezes sem se dar conta. “O controlador tolhe a criatividade dos outros porque precisa fazer as coisas de acordo com os padrões dele”, diz Ana Maria. Dosar a autoridade, acrescentar uma  pitada de humildade e confiar mais no outro é uma boa maneira de ajustar essa medida, pois, como diz o ditado, ninguém sabe tanto que não possa aprender, nem tão pouco que não possa ensinar.

Controle, uma ilusão

Para investigar como a sensação de controle influencia nossa vida, Ellen Langer, psicóloga e atualmente professora da Universidade de Harvard, já realizou alguns estudos e experimentos a respeito. E identificou o fenômeno da “ilusão de controle”, que diz respeito à propensão que temos de pensar que podemos controlar ou influenciar de alguma maneira resultados sobre os quais não temos nenhum poder.  É uma espécie de pensamento mágico, que acontece conosco o tempo todo. Quando acreditamos que estaremos mais seguros  no trânsito com as mãos no volante, que o nosso projeto é melhor que os dos colegas de trabalho ou que temos mais chances de ganhar a Mega-Sena se escolhermos os números que vamos jogar. Como se fôssemos os mais capazes e os fatores externos não tivessem a menor influência nos resultados. No livro Dance with Chance: Making Luck Work for You (Dance com o acaso: fazendo a sorte trabalhar para você, em tradução livre, sem edição em português), os autores Spyros Makridakis, Robin Hogarth e Anil Gaba dizem que perceber e aceitar a realidade é o passo mais certeiro para tomar boas decisões. “Nós controlamos claramente nossas decisões. Podemos decidir se investiremos nossas economias no mercado de ações, se aceitaremos um emprego ou se levaremos o nosso guarda-chuva. No entanto, não temos nenhum controle sobre se o mercado de ações irá subir ou descer, se o nosso novo chefe vai ser paranoico ou se vai chover. No fim das contas, nosso sucesso ou fracasso é uma combinação das nossas próprias ações e do efeito do ambiente.” Vista por um lado, a ilusão de controle tem o seu lado positivo, já que nos faz acreditar mais em nossas capacidades e habilidades. Ela pode até surtir o efeito de uma injeção de motivação e confiança, mas também nos joga para fora da realidade à medida que passamos a valorizar apenas o que parte de nós. Deixamos de raciocinar analiticamente, nos embriagamos com a sensação de poder e acreditamos ser possível manipular e influenciar o futuro. É aí que mora o perigo. Porque, quando a nossa percepção da realidade é afetada, corremos o sério risco de perder o controle de vez. “Em muitas circunstâncias, é melhor dissipar a ilusão de controle e dançar com o acaso. Paradoxalmente, ao fazê-lo, ganhamos mais controle sobre muitos aspectos de nossa vida”, garantem os autores do livro. Reconhecer que não somos os donos da verdade e dançar conforme a música dos acontecimentos é o melhor jeito de fugir da armadilha da ilusão de controle.

Largue o piloto automático

Por favor, não me chame de controladora.” “Mas você é controladora, Sacolão. Fale a verdade. Ninguém nunca disse isso para você antes?” “Tudo bem, acho que provavelmente você tem razão. Talvez eu tenha mesmo mania de querer controlar tudo. Só acho estranho você ter reparado. Porque eu não acho que isso seja óbvio para quem vê de fora. Quero dizer... aposto que a maioria  das pessoas não consegue ver esse meu problema na primeira vez em que olha para mim.” O diálogo acima foi extraído do best-seller autobiográfico Comer, Rezar, Amar. Elizabeth Gilbert era uma mulher que tinha uma vida aparentemente perfeita, com tudo no devido lugar. Morava em uma boa casa, tinha um marido apaixonado e uma carreira de sucesso. Ainda assim, se sentia triste e perdida. Quando não aguentou mais, pediu o divórcio, tentou um novo amor que não deu certo, caiu em depressão e tomou uma decisão. Deixou tudo para trás e ganhou a estrada mundo afora. Foi assim que ela desistiu de controlar a vida para apostar no inesperado. Como Elizabeth, muitos acreditam que sua faceta controladora não é óbvia para os outros. Mesmo porque não acham que cabem no rótulo de um controlador. E, se não se reconhecem dessa maneira, não veem razão alguma para mudar. Até porque, para mudar, é preciso sair da zona de conforto. Assim como a lagarta, que tem um enorme trabalho para construir seu casulo fio a fio, transforma-se em borboleta dentro dele e depois precisa rasgá-lo antes de voar para a liberdade. O controlador também precisa sair do seu próprio casulo – o controle –, que é feito principalmente de prazer de exercer o poder, insegurança e medo de sentir dor. E uma das melhores maneiras de rompê-lo é delegando responsabilidades, mesmo que para isso seja necessário instruir as pessoas a agir da forma que ele julga correta. Outra sugestão é ter uma conversa franca consigo mesmo, que, segundo a psicóloga Ana Maria Rossi, pode começar com perguntas simples. “Qual é a necessidade que tenho de manter todo esse controle? O que  estou afirmando para mim mesmo? Qual o custo desse comportamento para mim? O que está acontecendo fisiologicamente e emocionalmente comigo? Será que estou tendo prazer com o que faço?” Pode não ser fácil, mas vale a pena. Elizabeth Gilbert conheceu pessoas e lugares novos, provou sabores inéditos, encontrou um amor calmo e descobriu a força da fé. A fé também foi a ajuda que Regina Deliberai Trevisan, cuja história abriu esta reportagem, encontrou para se soltar do controle excessivo do qual era refém. Depois do despertar espiritual, ela leu o livro Limites – Quando Dizer Sim, Quando Dizer Não (Editora Vida) e criou o blog Amigoterapia, para refletir com algumas amigas sobre os ensinamentos da obra. Desprendeu-se da forma antiga, como costuma dizer, e optou por não se encaixar em nenhum outro tipo de forma. Sua rotina atual não é nem sombra do que foi. Continua atarefada, mas não sobrecarregada. Matou o polvo interno que havia em si. Acompanha de longe tudo o que acontece em sua empresa, já que se mudou para São Bernardo do Campo, e vive na ponte aérea entre as duas cidades. Contudo, consegue reservar algumas horas do dia para fazer o que gosta. O convívio com o marido e os filhos também melhorou. “Controlar o nosso próprio pensamento é a única tarefa possível, o resto é perda de tempo”, avalia. Regina se concentra em viver um dia de cada vez. Talvez esse seja o grande segredo para se libertar das amarras do controle.

Sibele Oliveira aprendeu a deixar a vida no comando. E surpresas não param de bater na sua porta. 

02/10/2015 - 15:40

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Revista Vida Simples